História do Pensamento
Administrativo II
Guia completo para estudantes de Administração
Material didático aprofundado para o Portal Admguia
Portal Admguia
2026
1.1 Continuidade em relação à
disciplina anterior
1.4 Uma disciplina de comparação e
síntese
2. Por que ela faz parte do curso
2.1 Superação da ideia de uma solução
universal
2.2 Formação para a tomada de decisão
2.3 Integração entre pessoas e
estrutura
2.4 Compreensão do ambiente
organizacional
2.5 Capacidade de diagnosticar
problemas complexos
2.6 Leitura crítica das práticas
contemporâneas
2.7 Preparação para atuação em
diferentes setores
2.8 Desenvolvimento de responsabilidade
ética
2.9 Formação de linguagem profissional
2.10 Base para disciplinas posteriores
3.1 Organização como sistema social
complexo
3.2 Estrutura formal e estrutura
informal
3.6 Desenvolvimento Organizacional
3.9 Configurações organizacionais e
coordenação
3.10 Estratégia como campo plural
3.12 Poder e política nas organizações
3.18 Visão Baseada em Recursos e
capacidades
3.19 Aprendizagem organizacional e
gestão do conhecimento
3.20 Perspectivas críticas, feministas
e decoloniais
3.21 Sustentabilidade e
responsabilidade organizacional
3.22 Organizações digitais, plataformas
e algoritmos
3.23 Síntese dos conceitos fundamentais
4. Principais Temas e Organização
4.1 Módulo 1 — Transição do pensamento
clássico para as abordagens posteriores
4.2 Módulo 2 — Estruturalismo e análise
das organizações
4.3 Módulo 3 — Decisão e racionalidade
limitada
4.4 Módulo 4 — Motivação, liderança e
desenho do trabalho
4.5 Módulo 5 — Desenvolvimento
Organizacional e mudança planejada
4.6 Módulo 6 — Organizações como
sistemas abertos
4.7 Módulo 7 — Abordagem sociotécnica
4.8 Módulo 8 — Contingência:
tecnologia, ambiente e estrutura
4.9 Módulo 9 — Configurações, desenho e
coordenação
4.10 Módulo 10 — Cultura, poder e
política
4.11 Módulo 11 — Teorias contemporâneas
do ambiente e da governança
4.12 Módulo 12 — Estratégia, recursos,
aprendizagem e conhecimento
4.13 Módulo 13 — Perspectivas críticas,
diversidade e desigualdades
4.14 Módulo 14 — Sustentabilidade,
redes e responsabilidade
4.15 Organização sugerida para um
semestre
4.16 Metodologias de ensino adequadas
4.17 Avaliação da aprendizagem
4.18 Matriz geral de comparação das
correntes
4.19 Perguntas integradoras para cada
tema
5. Relação com outras matérias
5.1 Comportamento Humano nas
Organizações
5.3 Estruturas e Processos
Organizacionais
5.4 Planejamento e Gestão Estratégica
5.5 Sistemas Integrados de Gestão e
Administração de Sistemas de Informação
5.6 Gestão da Produção e Logística
5.7 Gestão de Marketing e Comportamento
do Consumidor
5.8 Gestão Financeira e Orçamento
5.9 Economia e análise ambiental
5.10 Estado e Administração Pública
5.12 Métodos de Pesquisa e TCC
5.13 Gestão Ambiental e
sustentabilidade
6. Aplicações Práticas e Profissionais
6.1 Diagnóstico organizacional
6.6 Tomada de decisão gerencial
6.9 Governança e prestação de contas
6.10 Compras, contratos e terceirização
6.15 Organizações do terceiro setor e
coletivos
6.17 Trabalho remoto e híbrido
6.18 Plataformas e trabalho algorítmico
6.19 Diversidade, equidade e inclusão
6.21 Competências profissionais
desenvolvidas
7. Exemplo Prático ou Estudo de Caso
7.1 O caso da Rede Integra:
crescimento, tecnologia e perda de coordenação
7.4 Análise comportamental e decisória
7.8 Análise cultural e política
7.10 Dependência de recursos e
governança externa
7.11 Custos de transação e decisão
tecnológica
7.12 Teoria da agência e indicadores
7.13 Perspectiva crítica e direitos
Questão 1 — Racionalidade limitada e
decisão
Questão 2 — Estruturalismo e disfunções
burocráticas
Questão 3 — Sistemas e contingência
Questão 4 — Teoria institucional e
adoção de práticas
Questão 5 — Estudo integrado de
tecnologia e trabalho
10. Referências e Aprofundamento
10.1 Bibliografia básica em língua
portuguesa
10.2 Obras clássicas sobre decisão e
comportamento
10.3 Estruturalismo, burocracia e
instituições
10.4 Sistemas, sociotécnica e
contingência
10.5 Estrutura, estratégia e
configurações
10.6 Poder, dependência e governança
10.7 Cultura, aprendizagem e
conhecimento
10.8 Perspectivas críticas, gênero e
desigualdades
10.9 Leituras sobre Administração
brasileira
10.10 Roteiro de aprofundamento por
interesse
10.11 Tópicos para estudos futuros
10.12 Sugestão de projeto final
10.13 Plano de estudo orientado em
dezesseis encontros
10.14 Critérios para selecionar fontes
e avaliar conteúdos
10.15 Orientações para produção
acadêmica
10.16 Banco de atividades
complementares
10.16.1 Critérios de avaliação das
atividades complementares
10.16.2 Como transformar o guia em
rotina de estudo
10.16.3 Leituras comparativas para
consolidar a disciplina
1. Apresentação da Disciplina
História do Pensamento Administrativo II é a
disciplina que acompanha a ampliação e a diversificação das teorias
administrativas a partir da metade do século XX. Depois de estudar as
abordagens pioneiras, voltadas principalmente para a racionalização do trabalho,
a estrutura formal, a autoridade burocrática e as relações humanas, a pessoa
estudante passa a examinar teorias que procuram explicar organizações mais
complexas, abertas ao ambiente, marcadas por conflitos, decisões limitadas,
tecnologias variadas, culturas próprias e relações de poder.
A
definição central da disciplina pode ser apresentada da seguinte forma: História
do Pensamento Administrativo II estuda como o campo da Administração respondeu
às limitações das teorias clássicas e desenvolveu novas maneiras de compreender
decisões, pessoas, estruturas, ambientes, estratégias, mudanças e formas
contemporâneas de organização. Seu objeto não é apenas uma sequência de
autores e escolas. O objetivo é compreender os problemas históricos que
estimularam cada perspectiva, os conceitos utilizados para interpretá-los, as
contribuições produzidas e os limites que continuam relevantes.
No
início do século XX, muitas teorias administrativas partiam da ideia de que
seria possível identificar princípios gerais capazes de organizar qualquer
empresa. A busca por ordem, produtividade e previsibilidade era compreensível
em um cenário de industrialização acelerada. Entretanto, o crescimento das
organizações, a expansão do setor de serviços, a profissionalização da gestão,
o desenvolvimento tecnológico, a presença crescente do Estado na economia, a
internacionalização dos mercados e o fortalecimento de movimentos sociais
mostraram que as organizações não podiam ser explicadas apenas por tarefas,
hierarquias ou relações interpessoais.
As
abordagens estudadas nesta disciplina deslocam o olhar em várias direções. A Teoria
Estruturalista observa a organização como uma unidade social complexa, na
qual convivem estrutura formal, grupos informais, recompensas, conflitos e
relações com outras organizações. A Abordagem Comportamental
concentra-se nos processos de decisão, motivação, liderança, aprendizagem e
desenvolvimento das pessoas. A Teoria dos Sistemas descreve organizações
como sistemas abertos que recebem recursos do ambiente, transformam entradas e
produzem resultados. A Teoria da Contingência rejeita a ideia de uma
única forma ideal de administrar e afirma que estruturas e práticas precisam
ser adequadas às condições enfrentadas.
A
partir dessas bases, o pensamento administrativo tornou-se ainda mais plural.
Estudos sobre estratégia, cultura, poder, instituições, dependência de
recursos, custos de transação, ecologia organizacional, aprendizagem,
conhecimento, competências, inovação, diversidade, sustentabilidade e
transformação digital ampliaram o repertório disponível. Essas perspectivas nem
sempre formam uma escola unificada. Muitas vezes, oferecem explicações
concorrentes para o mesmo fenômeno. A disciplina prepara a pessoa estudante
para trabalhar com essa pluralidade de modo organizado e crítico.
Estudar
História do Pensamento Administrativo II não significa aceitar toda teoria como
verdadeira em qualquer situação. Teorias são modelos seletivos. Cada uma
ilumina determinados aspectos e deixa outros em segundo plano. Uma explicação
baseada em sistemas pode mostrar fluxos e interdependências, mas tratar
superficialmente conflitos políticos. Uma abordagem cultural pode explicar
símbolos e significados, mas não substituir uma análise de custos ou processos.
Uma leitura institucional pode revelar pressões por legitimidade, mas não
explicar sozinha por que duas organizações submetidas às mesmas regras
apresentam resultados diferentes.
Por
isso, a disciplina trabalha com uma pergunta permanente: qual teoria ajuda a
compreender melhor este problema, neste contexto, com estas evidências e para
esta finalidade? Essa pergunta evita o uso mecânico de conceitos. Em vez de
decorar nomes, a pessoa estudante aprende a relacionar problema, abordagem,
nível de análise e decisão administrativa.
1.1 Continuidade
em relação à disciplina anterior
A divisão entre
História do Pensamento Administrativo I e II varia conforme o currículo. Neste
guia, a primeira disciplina abrange os antecedentes da Administração, a
Administração Científica, o fordismo, a Teoria Clássica, a burocracia, a Escola
das Relações Humanas e contribuições precursoras de autoras(es) como Mary
Parker Follett e Chester Barnard. A segunda parte começa quando as organizações
passam a ser tratadas de forma mais explícita como sistemas sociais complexos,
ambientes de decisão e unidades abertas ao contexto externo.
Essa continuidade
é importante porque as teorias posteriores não surgiram em vazio histórico. O
estruturalismo retoma a burocracia, mas examina suas disfunções, seus conflitos
e suas relações com diferentes tipos de organização. O comportamentalismo aprofunda
a preocupação com pessoas, mas procura superar explicações simplificadas sobre
harmonia e satisfação. A teoria dos sistemas reorganiza discussões sobre
coordenação e interdependência. A contingência mostra que princípios clássicos
podem funcionar em certas circunstâncias e falhar em outras.
Em vez de
imaginar uma substituição completa, convém pensar em camadas de conhecimento.
Planejamento, especialização, autoridade, normas e incentivos continuam
presentes. O que muda é a maneira de interpretá-los. A pergunta deixa de ser
apenas “qual é o princípio correto?” e passa a incluir “em que condições?”,
“para quem?”, “com quais consequências?” e “como o ambiente modifica a
situação?”.
1.2 Objeto de estudo
O
objeto de estudo inclui:
•
a organização como sistema social complexo;
•
os limites da racionalidade nas decisões;
•
as necessidades, motivações e capacidades das
pessoas;
•
os estilos de liderança e os processos de
participação;
•
a organização como sistema aberto;
•
a relação entre tecnologia, ambiente, estratégia
e estrutura;
•
os processos de mudança e desenvolvimento
organizacional;
•
a influência de cultura, poder, instituições e
redes;
•
as formas contemporâneas de organização e
trabalho;
•
as críticas sociais, éticas e políticas às
práticas de gestão.
Esses temas podem ser estudados em
diferentes níveis. No nível individual, analisam-se percepção, motivação,
aprendizagem e decisão. No nível grupal, aparecem comunicação, liderança,
conflito e cooperação. No nível organizacional, estudam-se estrutura, tecnologia,
cultura e estratégia. No nível interorganizacional, examinam-se redes,
dependências, campos institucionais e relações com Estado, mercado e sociedade.
1.3 Finalidade formativa
A finalidade da disciplina é formar
profissionais capazes de reconhecer que problemas administrativos raramente
possuem uma única causa. Uma queda de desempenho pode resultar de processo mal
desenhado, informação incompleta, metas contraditórias, tecnologia inadequada,
falta de competências, conflito entre áreas, mudança ambiental ou perda de
legitimidade. Uma teoria isolada pode levar a diagnóstico parcial e decisão
precipitada.
Ao
final do estudo, espera-se que a pessoa estudante seja capaz de:
•
localizar teorias em seu contexto histórico;
•
distinguir escolas, conceitos e níveis de
análise;
•
comparar contribuições e limitações;
•
selecionar referenciais adequados para problemas
concretos;
•
relacionar estrutura, pessoas, tecnologia e
ambiente;
•
analisar efeitos éticos e sociais das decisões;
•
propor intervenções justificadas por evidências;
•
reconhecer a diversidade de organizações e
formas de trabalho.
1.4 Uma disciplina
de comparação e síntese
História do
Pensamento Administrativo II exige comparação. Em uma mesma organização, a
teoria da decisão pode explicar escolhas satisfatórias, a contingência pode
mostrar inadequação entre estrutura e ambiente, e a teoria institucional pode
revelar que determinadas práticas foram adotadas para demonstrar modernidade,
não necessariamente para melhorar resultados. Essas explicações podem ser
complementares ou entrar em tensão.
A síntese não
consiste em misturar conceitos sem critério. Ela depende de uma sequência
lógica: delimitar o problema, identificar evidências, escolher níveis de
análise, mobilizar teorias compatíveis, comparar interpretações e formular
propostas. Esse método aproxima a disciplina do trabalho profissional de
diagnóstico organizacional.
1.5 Como utilizar este guia
O guia foi organizado para
permitir leitura integral ou consulta por temas. Nas seções iniciais, são
apresentadas a finalidade da disciplina e seus conceitos básicos. Em seguida,
as correntes são detalhadas historicamente. As seções posteriores estabelecem
conexões com outras matérias, aplicações profissionais, estudo de caso,
atividades e bibliografia.
Uma
estratégia de estudo consiste em elaborar, para cada abordagem, uma ficha com
oito elementos:
1. contexto
histórico;
2. problema
central;
3. unidade
de análise;
4. visão
sobre pessoas e organizações;
5. conceitos
principais;
6. contribuições;
7. limitações;
8. aplicações
atuais.
A pessoa estudante também pode
selecionar uma organização conhecida e revisitá-la ao longo do semestre. Ao
estudar cada teoria, deve perguntar o que essa perspectiva permite observar e o
que permanece sem explicação. Esse exercício demonstra que teoria não é
abstração distante: é uma lente para ordenar a realidade.
2. Por que ela faz parte do
curso
A disciplina faz parte do curso porque
profissionais de Administração precisam lidar com organizações diversas,
instáveis e interdependentes. Dominar apenas técnicas operacionais não é
suficiente quando uma decisão afeta diferentes áreas, envolve interesses
conflitantes, depende de informações incompletas ou precisa responder a
mudanças ambientais. O pensamento administrativo oferece modelos para
interpretar essas situações antes de agir.
2.1 Superação da
ideia de uma solução universal
Uma contribuição
formativa central é abandonar a expectativa de que exista uma fórmula
administrativa válida para todas as organizações. A centralização pode ser
adequada em uma emergência, mas prejudicial em uma equipe de pesquisa. Regras
detalhadas podem proteger direitos em um órgão público, mas gerar demora quando
são desatualizadas ou duplicadas. Estruturas flexíveis podem favorecer
inovação, mas produzir ambiguidade quando não há responsabilidades mínimas.
A Teoria da
Contingência transforma essa percepção em princípio analítico: a qualidade de
uma estrutura depende de sua adequação a fatores como ambiente, tecnologia,
tamanho, estratégia e incerteza. Essa ideia aparece hoje em decisões sobre
trabalho remoto, gestão de projetos, segurança da informação, atendimento ao
público, inovação e organização de cadeias logísticas.
2.2 Formação para a
tomada de decisão
Administrar envolve
escolher, mas as escolhas não são realizadas com informação perfeita. Herbert
Simon mostrou que pessoas e organizações operam sob racionalidade limitada.
Tempo, atenção, conhecimento e capacidade de cálculo são restritos. Em vez de
examinar todas as alternativas, decisoras(es) constroem representações
simplificadas e frequentemente aceitam soluções satisfatórias.
Compreender esses
limites melhora a prática. Uma pessoa gestora pode estruturar decisões, tornar
critérios explícitos, buscar perspectivas diferentes, registrar premissas e
revisar resultados. Também pode reconhecer vieses, rotinas e pressões
políticas. A disciplina, portanto, ajuda a transformar decisão em processo
analisável, e não em ato misterioso atribuído apenas à experiência ou à
intuição.
2.3 Integração entre
pessoas e estrutura
As primeiras teorias
frequentemente separavam estrutura e pessoas. Algumas enfatizavam tarefas e
autoridade; outras reagiam destacando necessidades sociais e relações
informais. As perspectivas posteriores mostram que os elementos estão
conectados. Um desenho de cargos modifica autonomia e motivação. Um sistema de
metas altera cooperação. Uma estrutura matricial cria novas oportunidades de
integração, mas também conflitos de autoridade.
Essa integração é
necessária em Gestão de Pessoas, Processos, Estratégia, Tecnologia e Gestão
Pública. Não é possível implantar uma ferramenta sem considerar como ela
redistribui informação, poder, responsabilidade e carga de trabalho.
2.4 Compreensão do
ambiente organizacional
Organizações
dependem de recursos, normas, tecnologias, clientes, usuárias(os), governos,
comunidades e outras organizações. A teoria dos sistemas abertos mostra que
nenhuma unidade é autossuficiente. A dependência de recursos demonstra que
atores externos podem exercer poder. A teoria institucional explica por que
organizações procuram legitimidade e adotam práticas difundidas em seus campos.
Essa compreensão
amplia a análise estratégica. Resultados não dependem apenas de esforço
interno. Mudanças regulatórias, crises econômicas, transformações culturais,
novas tecnologias e expectativas sociais podem alterar prioridades. A pessoa
administradora precisa acompanhar essas mudanças e avaliar como afetam
recursos, riscos e legitimidade.
2.5 Capacidade de
diagnosticar problemas complexos
Problemas
organizacionais costumam ser apresentados por sintomas: atraso, reclamação,
rotatividade, queda de vendas, conflito, retrabalho ou baixa adesão. A
disciplina ensina a perguntar quais mecanismos produzem o sintoma. Uma demora
pode decorrer de excesso de aprovações, distribuição inadequada de
competências, sistema fragmentado ou incerteza sobre normas. Rotatividade pode
resultar de remuneração, liderança, condições de trabalho, ausência de
perspectivas ou incompatibilidade entre expectativas e cultura.
A história do
pensamento oferece um repertório de hipóteses. O diagnóstico ganha qualidade
quando evita explicações genéricas e relaciona evidências a conceitos. Isso
também reduz a tendência de adotar modismos como resposta automática.
2.6 Leitura
crítica das práticas contemporâneas
Muitas práticas
apresentadas como novas retomam debates antigos. Plataformas digitais de
trabalho podem reproduzir formas intensas de controle do tempo. Sistemas de
avaliação podem gerar conformidade burocrática. Programas de cultura
organizacional podem estimular pertencimento, mas também pressionar pessoas a
aceitar valores definidos pela direção. Estruturas ágeis podem ampliar
autonomia ou apenas transferir riscos para equipes sem recursos.
Conhecer a
história permite identificar continuidades, diferenças e consequências. Essa
leitura não exige rejeitar inovação. Ela ajuda a perguntar qual problema a
ferramenta pretende resolver, quais evidências a sustentam, quem se beneficia,
quais custos produz e como será avaliada.
2.7 Preparação
para atuação em diferentes setores
As teorias
estudadas não se limitam a grandes empresas industriais. Elas ajudam a
compreender universidades, hospitais, órgãos públicos, organizações
comunitárias, cooperativas, empresas familiares, startups, redes culturais e
plataformas digitais. Cada contexto possui finalidades, restrições e formas de
legitimidade diferentes.
Em organizações
públicas, por exemplo, eficiência precisa ser analisada junto com legalidade,
equidade, transparência e participação. Em hospitais, a coordenação envolve
diferentes profissões e alto risco. Em organizações sociais, a dependência de
financiadores pode influenciar prioridades. Em empresas familiares, autoridade
formal e vínculos de parentesco coexistem. O repertório teórico permite
reconhecer essas especificidades.
2.8
Desenvolvimento de responsabilidade ética
Decisões
administrativas distribuem oportunidades, riscos e recursos. Um algoritmo de
seleção pode reproduzir desigualdades. Uma reestruturação pode reduzir custos,
mas aumentar adoecimento. Uma política de desempenho pode estimular
aprendizagem ou competição destrutiva. A escolha de fornecedores pode afetar
trabalho digno e meio ambiente.
A disciplina
contribui para a responsabilidade ética porque mostra que técnicas carregam
pressupostos sobre pessoas, autoridade e finalidade. Profissionais não são
executoras(es) neutras(os). Participam da definição de critérios, indicadores e
procedimentos. Precisam antecipar impactos e criar mecanismos de escuta,
revisão e prestação de contas.
2.9 Formação de
linguagem profissional
Termos como sistema
aberto, diferenciação, integração, contingência, racionalidade limitada,
aprendizagem organizacional, isomorfismo, dependência, cultura, poder e
competência formam parte do vocabulário profissional. Entretanto, usar palavras
técnicas sem compreensão produz apenas aparência de conhecimento.
A disciplina ensina a
definir conceitos, reconhecer suas origens e aplicá-los com precisão. Essa
habilidade melhora relatórios, projetos, apresentações, pesquisas e conversas
com equipes multidisciplinares. Também permite traduzir ideias complexas para linguagem
simples quando a comunicação precisa alcançar públicos diversos.
2.10 Base para
disciplinas posteriores
História do Pensamento
Administrativo II conecta-se diretamente a Estratégia, Gestão de Pessoas,
Comportamento Organizacional, Sistemas de Informação, Produção, Logística,
Marketing, Gestão Pública, Empreendedorismo, Pesquisa e TCC. Conceitos como
ambiente, decisão, estrutura, cultura e mudança reaparecem em toda a formação.
Sem essa base,
ferramentas posteriores podem parecer desconectadas. Com ela, a pessoa
estudante entende que planejamento estratégico pressupõe determinada leitura do
ambiente; que desenho organizacional envolve contingências; que sistemas de
informação estruturam decisões; que políticas de pessoas expressam teorias
sobre motivação e controle; e que projetos de mudança precisam considerar
cultura, poder e aprendizagem.
3. Conceitos Fundamentais
3.1 Organização
como sistema social complexo
A organização
pode ser definida como uma coletividade criada para realizar atividades
relativamente coordenadas e alcançar finalidades. Essa definição parece
simples, mas envolve várias dimensões: divisão do trabalho, autoridade,
comunicação, tecnologia, regras, cultura, recursos e relações externas. As
teorias posteriores ao período clássico enfatizam que essas dimensões não
funcionam isoladamente.
Dizer que a
organização é um sistema social complexo significa reconhecer que
pessoas interpretam regras, formam grupos, negociam interesses, aprendem,
resistem e criam soluções informais. A estrutura formal indica cargos e
responsabilidades, mas o funcionamento real inclui redes de confiança,
conhecimentos tácitos, conflitos e adaptações. Uma análise administrativa
precisa comparar o desenho oficial com as práticas efetivas.
A complexidade
também resulta da multiplicidade de objetivos. Acionistas podem buscar retorno;
trabalhadoras(es), condições dignas; clientes, qualidade; governo,
conformidade; comunidade, responsabilidade; direção, sustentabilidade
financeira. Nem sempre esses objetivos são compatíveis. A gestão envolve
construir acordos, definir prioridades e lidar com tensões.
3.2 Estrutura formal
e estrutura informal
A estrutura
formal reúne posições, departamentos, normas, processos e relações de
autoridade oficialmente definidos. A estrutura informal emerge das
interações cotidianas. Inclui amizades, lideranças não oficiais, redes de
ajuda, atalhos e padrões de influência.
As duas estruturas
podem se apoiar ou entrar em conflito. Uma rede informal pode acelerar a
solução de problemas quando o processo formal é lento. Também pode concentrar
informação em poucas pessoas, favorecer privilégios ou ocultar decisões. O
objetivo não é eliminar a informalidade, algo impossível, mas compreender seus
efeitos e criar estruturas formais que aprendam com o trabalho real.
3.3 Conflito organizacional
Abordagens anteriores
frequentemente tratavam conflito como desvio a ser eliminado. As teorias
posteriores reconhecem que conflito pode ser inevitável e, em certas condições,
produtivo. Departamentos possuem metas, conhecimentos e horizontes diferentes. Finanças
pode priorizar controle de custos; Marketing, rapidez; Operações, estabilidade;
Tecnologia, segurança. Essas diferenças geram tensão.
O conflito torna-se destrutivo
quando envolve humilhação, ocultação de informação, retaliação ou disputa sem
regras. Pode ser construtivo quando explicita problemas, estimula alternativas
e produz acordos melhores. A gestão precisa distinguir conflito de tarefa,
conflito de processo e conflito de relacionamento, além de criar canais de
negociação e decisão.
3.4 Teoria Estruturalista
A Teoria Estruturalista
consolidou-se em meados do século XX como tentativa de ampliar a compreensão
das organizações. Ela dialoga com a burocracia weberiana e com a Escola das
Relações Humanas, mas considera insuficiente estudar apenas a estrutura formal
ou os pequenos grupos. Seu foco está na organização inteira, nas relações entre
diferentes organizações e nas tensões entre objetivos, recompensas, autoridade
e participação.
O estruturalismo não é uma teoria
única e homogênea. O termo reúne contribuições de estudiosos que examinaram
burocracias, tipos de organização, funções sociais, conflitos e consequências
não intencionais. Entre os nomes frequentemente associados estão Robert Merton,
Philip Selznick, Alvin Gouldner, Amitai Etzioni, Peter Blau e W. Richard Scott.
3.4.1
Robert Merton e as disfunções da burocracia
Robert
K. Merton analisou como características criadas para aumentar previsibilidade
podem gerar consequências não desejadas. A disciplina, a conformidade e o apego
às regras podem produzir deslocamento de objetivos: o cumprimento do
procedimento passa a ser tratado como finalidade, mesmo quando não resolve o
problema que justificou a norma.
A
formação especializada e a repetição podem levar à incapacidade treinada,
situação em que respostas aprendidas dificultam adaptação a circunstâncias
novas. A impessoalidade, destinada a garantir tratamento geral, pode ser
percebida como frieza quando aplicada sem comunicação e sensibilidade. A ênfase
no controle pode estimular comportamento defensivo e resistência a mudanças.
Essas
disfunções não demonstram que toda regra é inútil. Mostram que a racionalidade
formal pode produzir efeitos irracionais. A tarefa administrativa é revisar
regras, verificar se continuam relacionadas aos objetivos, identificar custos
de conformidade e preservar garantias importantes.
3.4.2
Philip Selznick e a institucionalização
Philip
Selznick distinguiu organização como instrumento técnico e instituição como
organização que adquire valores, identidade e compromissos próprios. Ao longo
do tempo, grupos internos e pressões externas influenciam finalidades. A
organização pode adaptar-se para sobreviver, incorporando interesses e práticas
que não estavam no plano original.
Selznick
estudou processos de cooptação, nos quais lideranças incorporam
representantes de grupos externos ou internos para reduzir oposição e obter
legitimidade. A cooptação pode ampliar participação, mas também neutralizar
críticas se a inclusão for apenas simbólica. Sua contribuição mostra que
estruturas formais são moldadas por poder, valores e história.
O
conceito de institucionalização foi posteriormente ampliado pela teoria
institucional. No uso selznickiano, ele destaca como uma organização se torna
“impregnada de valores” e desenvolve caráter distinto. Isso ajuda a compreender
por que mudanças aparentemente técnicas podem ser interpretadas como ameaças à
identidade.
3.4.3
Alvin Gouldner e os padrões burocráticos
Alvin
Gouldner mostrou que a burocracia pode assumir formas diferentes conforme a
maneira como regras são criadas e aplicadas. Em certos contextos, regras são
impostas por uma parte e resistidas por outra; em outros, são aceitas como
proteção coletiva; também podem existir formalmente, mas ser pouco aplicadas.
Essa
análise impede tratar burocracia como bloco uniforme. Uma norma construída com
participação e percebida como legítima produz efeitos diferentes de uma regra
imposta sem explicação. A aplicação seletiva também importa: quando algumas
pessoas podem ignorar regras e outras são punidas, a formalização perde
legitimidade.
3.4.4
Amitai Etzioni e os tipos de organização
Amitai
Etzioni classificou organizações segundo o tipo de poder utilizado e o
envolvimento das pessoas participantes. O poder coercitivo baseia-se em
força ou ameaça; o poder remunerativo, em recompensas materiais; o poder
normativo, em valores, prestígio e identificação. O envolvimento pode ser
alienado, calculista ou moral.
A
combinação entre poder e envolvimento ajuda a comparar prisões, empresas,
escolas, organizações religiosas, hospitais e associações. Embora
classificações não capturem toda diversidade, elas mostram que mecanismos de
controle precisam ser analisados em relação à finalidade e à participação. Uma
organização educacional não deve ser administrada como unidade coercitiva; uma
organização voluntária depende de identificação e confiança.
Etzioni
também chamou atenção para a pessoa organizacional, alguém que participa
de múltiplas organizações e precisa adaptar-se a diferentes papéis. A vida
contemporânea é atravessada por instituições de ensino, trabalho, saúde,
governo, consumo e participação social. Essa multiplicidade produz
oportunidades e tensões.
3.4.5
Blau e Scott: beneficiárias(os) e tipos organizacionais
Peter
Blau e W. Richard Scott propuseram distinguir organizações segundo o principal
grupo beneficiado. Associações de benefício mútuo atendem participantes;
empresas comerciais beneficiam proprietárias(os); organizações de serviços
atendem clientes ou usuárias(os); organizações de bem-estar público dirigem-se
à sociedade mais ampla.
A
tipologia ajuda a discutir prestação de contas. Quem define qualidade? Para
quem a organização deve responder? Em um hospital, por exemplo, profissionais,
pacientes, governo e direção podem ter critérios diferentes. Em uma
universidade pública, a finalidade não pode ser reduzida ao interesse de um
único grupo.
3.4.6 A pessoa
organizacional
O
estruturalismo descreve uma pessoa capaz de desempenhar papéis, tolerar
frustrações, adiar recompensas e adaptar-se a normas diferentes. Essa imagem
reflete o crescimento de organizações complexas. Entretanto, pode naturalizar
exigências excessivas de conformidade. Uma leitura crítica pergunta quais
custos emocionais e sociais são transferidos às pessoas para manter estruturas
contraditórias.
3.4.7
Contribuições e limites do estruturalismo
Entre
as contribuições estão a análise conjunta de estrutura formal e informal, o
reconhecimento do conflito, a comparação entre organizações, a atenção às
disfunções burocráticas e a compreensão de que objetivos podem ser
transformados. O estruturalismo amplia a unidade de análise e aproxima
Administração e Sociologia.
Seus
limites incluem classificações por vezes rígidas, tendência a descrever mais do
que orientar mudanças e pouca atenção, em parte da literatura, a desigualdades
de gênero, raça, classe e colonialidade. Ainda assim, seus conceitos permanecem
úteis para analisar organizações públicas, universidades, hospitais e grandes
empresas.
3.5 Abordagem Comportamental
A Abordagem Comportamental
desenvolveu-se a partir da década de 1940 e ganhou força nas décadas seguintes.
Ela desloca o foco das relações sociais genéricas para processos de
comportamento, decisão, motivação, liderança e aprendizagem. Dialoga com Psicologia,
Economia, Sociologia e Ciência Política.
O termo comportamental não deve
ser confundido com uma visão limitada de estímulo e resposta. No pensamento
administrativo, ele reúne contribuições variadas. Herbert Simon e James March
analisam decisão e organização. Abraham Maslow, Frederick Herzberg, Douglas
McGregor, Rensis Likert e Chris Argyris discutem necessidades, trabalho,
liderança e desenvolvimento. Essas teorias possuem diferentes níveis de
evidência e precisam ser estudadas criticamente.
3.5.1
Herbert Simon e a racionalidade limitada
Herbert
A. Simon criticou a imagem do “homem econômico” capaz de conhecer todas as
alternativas, calcular consequências e escolher a opção ótima. Na prática,
decisoras(es) possuem informação incompleta, tempo limitado, capacidade
cognitiva restrita e objetivos múltiplos. Por isso, operam sob racionalidade
limitada.
Em
vez de otimizar, pessoas frequentemente satisfazem: procuram uma
alternativa suficientemente boa segundo um nível de aspiração. A busca pode
terminar quando uma opção aceitável é encontrada. Isso não significa
irracionalidade absoluta. Significa uma racionalidade adaptada a limites reais.
Simon
também destacou a importância de premissas de decisão. Organizações influenciam
escolhas ao definir objetivos, regras, rotinas, informações disponíveis e
autoridade. A decisão individual é parcialmente estruturada pelo ambiente
organizacional. Processos administrativos podem ampliar ou restringir o campo
de atenção.
Uma
aplicação prática é o desenho de processos decisórios. Em vez de exigir análise
infinita, a organização pode definir critérios mínimos, prazos, fontes de
informação, responsáveis e momentos de revisão. Também pode distinguir decisões
programadas, repetitivas e apoiadas por regras, de decisões não programadas,
novas e ambíguas.
3.5.2
James March e a organização como coalizão
James
March, em colaboração com Simon e posteriormente com Richard Cyert, analisou
organizações como coalizões de participantes com objetivos parcialmente
diferentes. Metas organizacionais resultam de negociação, aprendizagem e
compromissos. Em vez de uma finalidade única e perfeitamente ordenada, existem
prioridades que podem mudar.
A
teoria comportamental da firma descreve busca local, atenção sequencial a
problemas e criação de folgas organizacionais. Quando o desempenho fica abaixo
do nível esperado, a organização procura soluções nas proximidades das práticas
conhecidas. Essa busca pode ser econômica, mas também limitar inovação.
March
estudou ainda a lógica da adequação, segundo a qual pessoas perguntam
“que tipo de situação é esta?” e “o que alguém como eu deve fazer?”. Nem toda
ação decorre de cálculo de consequências. Identidades, papéis e regras
apropriadas também orientam escolhas.
3.5.3
Maslow e a hierarquia de necessidades
Abraham
Maslow propôs uma hierarquia de necessidades frequentemente representada por
níveis fisiológicos, segurança, pertencimento, estima e autorrealização. A
teoria tornou-se popular na Administração porque oferecia uma linguagem simples
para discutir motivação além do salário.
É
importante evitar uso mecânico. Pessoas não percorrem níveis de maneira
idêntica, e necessidades podem coexistir. Contextos culturais, trajetórias e
condições materiais influenciam prioridades. A pirâmide é uma simplificação
posterior e não deve ser tratada como instrumento diagnóstico universal.
Sua
contribuição histórica foi mostrar que trabalho pode relacionar-se a segurança,
vínculos, reconhecimento e desenvolvimento. A aplicação responsável consiste em
ampliar condições de trabalho e possibilidades de participação, não em
classificar pessoas de modo rígido.
3.5.4
Herzberg e os fatores higiênicos e motivacionais
Frederick
Herzberg distinguiu fatores associados à insatisfação, chamados higiênicos,
de fatores relacionados à satisfação e ao conteúdo do trabalho, chamados motivacionais.
Salário, políticas, supervisão e condições físicas seriam higiênicos;
realização, reconhecimento, responsabilidade e crescimento, motivacionais.
A
distinção inspirou o enriquecimento do cargo, com ampliação de
responsabilidade, significado e autonomia. Entretanto, a metodologia e a
generalização da teoria foram criticadas. Pessoas podem atribuir sucessos a si
mesmas e fracassos ao contexto, o que influencia relatos.
Na
prática, não se deve concluir que remuneração ou condições são irrelevantes.
Ausência de justiça salarial e segurança pode causar forte insatisfação. O
valor da abordagem está em lembrar que eliminar problemas não garante
envolvimento; o desenho do trabalho também importa.
3.5.5 McGregor e
as Teorias X e Y
Douglas
McGregor apresentou as Teorias X e Y como conjuntos de pressupostos gerenciais.
A Teoria X supõe que pessoas evitam trabalho, precisam de controle e
preferem direção. A Teoria Y considera que esforço pode ser natural,
pessoas podem assumir responsabilidades e autocontrole é possível quando existe
compromisso com objetivos.
McGregor
não afirmou que existam dois tipos fixos de pessoa. Seu argumento é que
pressupostos de liderança influenciam práticas e podem produzir comportamentos
que parecem confirmá-los. Uma gestão desconfiada cria controles rígidos, reduz
autonomia e pode estimular passividade. Depois, interpreta a passividade como
prova de que o controle era necessário.
A
aplicação exige analisar contexto e capacidade. Autonomia sem recursos, clareza
ou formação pode ser abandono. Controle mínimo pode ser necessário em
atividades de alto risco. O ponto central é revisar crenças e construir
condições para responsabilidade.
3.5.6
Likert e os sistemas de administração
Rensis
Likert descreveu quatro sistemas de gestão, do autoritário explorador ao
participativo grupal. Os sistemas diferem em confiança, comunicação,
participação e processo decisório. Likert valorizou grupos de trabalho
integrados e relações de apoio.
Seu
conceito de elos de ligação descreve pessoas que pertencem a mais de um
grupo e conectam níveis ou unidades. Essas posições podem facilitar
coordenação, embora também produzam sobrecarga. A ideia permanece atual em
estruturas matriciais, comitês e redes de projetos.
3.5.7
Chris Argyris: maturidade, aprendizagem e rotinas defensivas
Chris
Argyris argumentou que estruturas rígidas podem manter pessoas em condições de
dependência e passividade, incompatíveis com seu desenvolvimento. À medida que
amadurecem, pessoas tendem a buscar autonomia, variedade e responsabilidade.
Organizações excessivamente controladoras podem gerar apatia, conflito ou
adaptação superficial.
Em
trabalhos posteriores, Argyris, com Donald Schön, distinguiu aprendizagem de
ciclo simples e aprendizagem de ciclo duplo. No ciclo simples,
corrigem-se ações sem questionar valores e regras básicas. No ciclo duplo,
examinam-se as premissas que orientam a ação. Uma equipe que melhora um
formulário pratica ciclo simples; uma equipe que pergunta por que o formulário
existe e quem ele exclui aproxima-se do ciclo duplo.
Argyris
também estudou rotinas defensivas, comportamentos que protegem pessoas e
organizações de constrangimento, mas impedem aprendizagem. Reuniões em que
todos percebem um problema e ninguém o nomeia são exemplo. Criar segurança para
questionamento e separar crítica de ataque pessoal são condições importantes.
3.5.8
Decisão programada e não programada
Decisões
programadas são repetitivas, estruturadas e apoiadas por regras. Decisões não
programadas são novas, pouco estruturadas e exigem julgamento. A distinção
ajuda a decidir quando automatizar, padronizar ou escalar uma questão.
Automatizar
uma decisão programada pode reduzir tempo e erro. Entretanto, classificar
indevidamente uma situação complexa como rotina pode produzir injustiça.
Sistemas precisam prever exceções, revisão humana e transparência. Essa
discussão tornou-se ainda mais relevante com inteligência artificial e
algoritmos de decisão.
3.5.9
Motivação intrínseca e extrínseca
Motivação
extrínseca decorre de recompensas ou punições externas; motivação intrínseca
relaciona-se ao interesse e ao significado da atividade. Na prática, as duas
podem coexistir. Um salário justo é condição material e reconhecimento; uma
tarefa também pode oferecer aprendizado e propósito.
Sistemas
de incentivo mal desenhados podem deslocar atenção para o indicador e
enfraquecer cooperação. Quando apenas quantidade é recompensada, qualidade pode
cair. A gestão precisa alinhar métricas, considerar efeitos não intencionais e
preservar autonomia compatível com a atividade.
3.5.10
Contribuições e limites da abordagem comportamental
A
abordagem comportamental tornou decisão, motivação, liderança e aprendizagem
temas centrais. Ela mostrou que objetivos são negociados, informações são
limitadas e estruturas influenciam comportamento. Também abriu caminho para
Comportamento Organizacional e Desenvolvimento Organizacional.
Seus
limites incluem risco de psicologizar problemas estruturais, tratar sofrimento
como falta de motivação individual e utilizar teorias populares sem evidência
suficiente. A atenção às pessoas precisa ser acompanhada de análise de
condições de trabalho, desigualdades, recursos e poder.
3.6 Desenvolvimento
Organizacional
O Desenvolvimento
Organizacional, conhecido pela sigla DO, ganhou força nas décadas de 1950 e
1960. Reúne intervenções planejadas para melhorar capacidade de mudança,
relações, processos grupais e efetividade. Foi influenciado por Kurt Lewin,
estudos de dinâmica de grupos, pesquisa-ação e ciências comportamentais.
3.6.1
Kurt Lewin, pesquisa-ação e mudança
Kurt Lewin contribuiu para compreender
comportamento como função da pessoa e do ambiente. Na pesquisa-ação,
diagnóstico, intervenção e aprendizagem são conectados. A organização não é
apenas objeto passivo de estudo; participantes colaboram na investigação e
utilizam resultados para mudar práticas.
O modelo de descongelar, mudar e recongelar
tornou-se uma metáfora conhecida. “Descongelar” significa questionar padrões
existentes; “mudar”, experimentar novas práticas; “recongelar”, estabilizar
aprendizados. A metáfora precisa ser atualizada em ambientes de mudança
contínua: estabilização não significa rigidez, mas incorporação de novos
padrões com possibilidade de revisão.
3.6.2 Valores do Desenvolvimento
Organizacional
O DO costuma valorizar participação,
confiança, comunicação aberta, cooperação e desenvolvimento humano.
Intervenções incluem diagnóstico de clima, formação de equipes, facilitação de
conflitos, redesenho de trabalho e reuniões de confronto organizacional.
Esses valores podem contribuir para
mudanças mais legítimas, mas não eliminam relações de poder. Uma oficina
participativa não compensa decisão já tomada sem possibilidade de influência. O
processo precisa deixar claro o que está aberto à construção e quais limites
existem.
3.6.3
Consultoria de processos
Edgar Schein desenvolveu a ideia de consultoria de
processos, na qual a pessoa consultora ajuda o cliente a perceber e melhorar
seus próprios processos, em vez de entregar solução pronta. O conhecimento do
problema está distribuído; a intervenção deve construir capacidade interna.
A consultoria de processos é útil quando conflitos,
comunicação e aprendizagem são parte do problema. Exige escuta, contrato claro,
confidencialidade e atenção aos efeitos da presença da consultoria.
3.6.4 Limites do DO
O Desenvolvimento Organizacional pode supervalorizar consenso e
subestimar interesses incompatíveis. Programas de mudança podem utilizar
linguagem participativa para obter adesão sem redistribuir poder. Também podem
individualizar responsabilidade por problemas criados por metas ou recursos
insuficientes.
A aplicação responsável combina participação real, análise
política, condições materiais e avaliação de resultados.
3.7 Teoria dos Sistemas
A Teoria Geral dos Sistemas, associada
a Ludwig von Bertalanffy, influenciou diversas áreas ao propor que fenômenos
fossem estudados como totalidades compostas por partes interdependentes. Na
Administração, organizações passaram a ser vistas como sistemas abertos
que trocam recursos, energia e informação com o ambiente.
3.7.1
Entradas, transformação, saídas e retroalimentação
Um
sistema organizacional recebe entradas, como pessoas, materiais,
recursos financeiros, dados e demandas. Realiza processos de transformação
e produz saídas, como produtos, serviços, decisões, impactos e resíduos.
A retroalimentação fornece informações sobre resultados e permite
ajustes.
Esse
modelo ajuda a mapear processos, mas não deve reduzir pessoas a recursos
passivos. Entradas e saídas possuem qualidade, significado e efeitos sociais.
Uma universidade, por exemplo, não transforma simplesmente estudantes em
diplomas; produz conhecimento, relações, oportunidades e impactos que não cabem
em indicadores únicos.
3.7.2 Sistemas abertos
e ambiente
Sistemas
fechados são modelos que praticamente ignoram trocas externas. Organizações
reais são abertas. Dependem de mercados, políticas públicas, tecnologia,
cultura, trabalho e natureza. Mudanças ambientais podem alterar recursos e
demandas.
Daniel
Katz e Robert Kahn aplicaram conceitos sistêmicos às organizações. Destacaram
ciclos de entrada-transformação-saída, entropia negativa, informação,
diferenciação e integração. A sobrevivência depende de renovar recursos e
adaptar-se.
3.7.3 Entropia e
entropia negativa
Entropia
representa tendência à desorganização ou perda de capacidade. Sistemas abertos
podem combatê-la por meio de importação de recursos, aprendizagem e renovação.
Na prática, organizações perdem conhecimento quando pessoas saem, processos
deixam de ser revisados e equipamentos se tornam obsoletos. Treinamento,
memória institucional e inovação funcionam como mecanismos de renovação.
3.7.4 Homeostase
e equilíbrio dinâmico
Homeostase
é a capacidade de manter estabilidade por ajustes. Em organizações,
estabilidade não significa ausência de mudança. Sistemas ajustam rotinas para
preservar funções essenciais. Um hospital pode reorganizar equipes diante de
aumento de demanda, mantendo segurança do atendimento.
O
excesso de homeostase pode gerar resistência e impedir transformação
necessária. O desafio é distinguir estabilidade protetora de rigidez defensiva.
3.7.5 Diferenciação e
integração
À
medida que organizações crescem, unidades se especializam. Essa diferenciação
aumenta conhecimento específico, mas cria linguagens, metas e ritmos distintos.
A integração reúne mecanismos que coordenam essas unidades, como planos,
sistemas, comitês, papéis de ligação e processos transversais.
Diferenciar
sem integrar produz silos. Integrar sem reconhecer especialidades gera
centralização excessiva. O desenho organizacional busca equilíbrio contingente.
3.7.6 Equifinalidade
A
equifinalidade indica que sistemas abertos podem alcançar resultados
semelhantes por caminhos diferentes. Não existe necessariamente uma única
estrutura correta. Organizações podem atender ao mesmo público com modelos
distintos, desde que sejam coerentes com recursos e contexto.
Esse
conceito apoia a crítica a receitas universais. Também exige avaliação:
caminhos diferentes não são igualmente justos ou sustentáveis, mesmo quando
produzem o mesmo indicador final.
3.7.7 Fronteiras e
subsistemas
Fronteiras
definem o que é considerado parte do sistema, mas são permeáveis.
Departamentos, equipes e projetos podem ser tratados como subsistemas. Cada
recorte depende da pergunta. Para analisar atraso de entrega, pode ser
necessário incluir fornecedores e logística externa, não apenas produção
interna.
Escolher
fronteiras muito estreitas desloca custos para fora do diagnóstico. Uma empresa
pode parecer produtiva se ignora danos ambientais ou trabalho precário em
fornecedores. A análise sistêmica responsável amplia o campo quando impactos
relevantes estão externalizados.
3.7.8 Sistemas
sociotécnicos
A
abordagem sociotécnica, desenvolvida no Tavistock Institute por
pesquisadoras(es) como Eric Trist, mostrou que desempenho depende da otimização
conjunta dos sistemas social e técnico. Introduzir tecnologia sem redesenhar
trabalho, competências e autonomia pode piorar resultados.
O
princípio continua atual em automação, inteligência artificial, plataformas e
trabalho remoto. A pergunta não é apenas se a tecnologia funciona, mas como
redistribui tarefas, decisões, riscos e conhecimento.
3.7.9
Contribuições e limites da teoria dos sistemas
A
teoria dos sistemas oferece visão integrada, destaca ambiente,
interdependência, feedback e múltiplos caminhos. É útil em processos,
estratégia, sustentabilidade e políticas públicas.
Seu
risco é tornar-se linguagem genérica. Dizer que “tudo está conectado” não
basta. A análise precisa especificar quais relações existem, como são medidas,
quem controla recursos e quais efeitos ocorrem. Abordagens sistêmicas também
podem suavizar conflitos ao descrevê-los como problemas de ajuste.
3.8 Teoria da Contingência
A Teoria da Contingência afirma que
não existe uma única maneira superior de organizar. A estrutura adequada
depende de variáveis internas e externas. A palavra contingência indica que uma
escolha é condicionada por circunstâncias.
Essa abordagem desenvolveu-se por
pesquisas empíricas que compararam organizações. Em vez de formular princípios
universais, estudiosas(os) investigaram relações entre tecnologia, ambiente,
estratégia, tamanho e estrutura.
3.8.1 Joan Woodward
e tecnologia
Joan
Woodward estudou empresas industriais e identificou diferenças entre produção
unitária ou em pequenos lotes, produção em massa e produção por processo
contínuo. Estruturas consideradas bem-sucedidas variavam conforme a tecnologia.
Princípios clássicos não explicavam igualmente todos os casos.
Produção
em massa tende a exigir padronização e controle do fluxo; produção unitária
depende de habilidade e adaptação; processo contínuo envolve alta automação e
conhecimento técnico. A contribuição é mostrar que tecnologia influencia
desenho de cargos, hierarquia e comunicação.
Hoje,
tecnologia não é apenas equipamento. Inclui sistemas digitais, conhecimento,
interdependência das tarefas e grau de incerteza. Uma equipe de desenvolvimento
de software requer coordenação diferente de uma central de processamento
repetitivo.
3.8.2
Burns e Stalker: sistemas mecanicistas e orgânicos
Tom
Burns e G. M. Stalker compararam organizações em ambientes estáveis e
inovadores. Estruturas mecanicistas possuem especialização rígida,
autoridade vertical e comunicação formal. Estruturas orgânicas
apresentam papéis flexíveis, comunicação lateral e autoridade baseada também em
conhecimento.
Mecanicista
não significa necessariamente ruim, e orgânico não significa sempre superior.
Atividades previsíveis e reguladas podem exigir formalização. Ambientes
incertos e inovadores demandam adaptação. Muitas organizações combinam os dois
modelos em unidades diferentes.
3.8.3
Lawrence e Lorsch: diferenciação e integração
Paul
Lawrence e Jay Lorsch observaram que unidades organizacionais enfrentam
ambientes específicos. Pesquisa, produção e vendas desenvolvem orientações
distintas. Quanto maior a incerteza e a diferenciação, maior a necessidade de
mecanismos de integração.
Integração
não é apenas reunião. Pode envolver papéis, equipes, sistemas, metas
compartilhadas e resolução de conflitos. O desenho deve respeitar diferenças
necessárias sem permitir fragmentação.
3.8.4
Alfred Chandler: estratégia e estrutura
Alfred
Chandler estudou grandes empresas e formulou a ideia de que a estrutura
acompanha a estratégia. Expansão de produtos e mercados criou necessidade de
estruturas multidivisionais. A formulação não deve ser lida como sequência
automática. Estruturas existentes também condicionam estratégias, e mudanças
podem ser políticas.
A
contribuição permanece útil: uma estratégia de diversificação exige coordenação
diferente de uma estratégia concentrada. Crescimento sem revisão de estrutura
pode sobrecarregar direção e obscurecer resultados.
3.8.5
Charles Perrow e a tecnologia das tarefas
Charles
Perrow classificou tecnologias segundo variabilidade das tarefas e
analisabilidade dos problemas. Tarefas rotineiras possuem poucas exceções e
métodos conhecidos; tarefas não rotineiras apresentam alta variedade e soluções
menos analisáveis.
Estruturas
de controle, treinamento e comunicação devem variar. Padronização intensa pode
funcionar em rotina, mas prejudicar solução de problemas inéditos. Em
atividades complexas, conhecimento distribuído e autonomia ganham importância.
3.8.6 James
Thompson e interdependência
James
D. Thompson distinguiu formas de interdependência. Na interdependência
agrupada, unidades contribuem separadamente para o resultado; na sequencial,
a saída de uma torna-se entrada de outra; na recíproca, unidades trocam
continuamente recursos e informação.
Cada
forma exige coordenação diferente. Regras podem bastar para interdependência
agrupada; planos e cronogramas ajudam na sequencial; ajuste mútuo e comunicação
intensa são necessários na recíproca. Essa análise é útil em processos,
projetos e serviços complexos.
3.8.7
Ambiente, incerteza e complexidade
Ambientes
variam em estabilidade, complexidade, disponibilidade de recursos e pressão
institucional. Incerteza aumenta quando informações são insuficientes para
prever efeitos. Organizações podem responder criando unidades de monitoramento,
alianças, reservas, cenários e estruturas flexíveis.
Nem
toda turbulência deve ser respondida com mudança constante. Reações excessivas
podem destruir capacidades. A gestão precisa separar sinais relevantes de ruído
e manter princípios estáveis, como segurança e direitos.
3.8.8
Ajuste, desempenho e equifinalidade
A
contingência trabalha com a ideia de ajuste entre características. Uma
estrutura altamente formalizada pode ter bom desempenho em contexto estável e
baixo desempenho em inovação. Entretanto, desempenho é multidimensional.
Eficiência financeira, qualidade, equidade, segurança e legitimidade podem entrar
em tensão.
A
equifinalidade indica que mais de uma configuração pode ser adequada. O
diagnóstico não deve buscar cópia exata de outra organização, mas coerência
interna e externa.
3.8.9 Limites
da Teoria da Contingência
Um
limite é transformar “depende” em resposta vaga. A teoria exige identificar de
que depende e quais evidências sustentam a relação. Outro risco é tratar
ambiente como força neutra e ignorar que organizações tentam modificá-lo por
política, inovação e alianças.
Também
é necessário perguntar quem define desempenho e quem suporta custos de
adaptação. Uma estrutura pode ser eficiente para proprietárias(os) e
prejudicial para trabalhadoras(es) ou comunidade.
3.9 Configurações
organizacionais e coordenação
Henry Mintzberg
sistematizou mecanismos de coordenação e configurações organizacionais. Entre
os mecanismos estão supervisão direta, padronização de processos, padronização
de resultados, padronização de habilidades e ajuste mútuo. Organizações
combinam esses mecanismos conforme trabalho e contexto.
As configurações
conhecidas incluem estrutura simples, burocracia mecanizada, burocracia
profissional, forma divisionalizada e adhocracia. Posteriormente, outras formas
foram discutidas. A tipologia ajuda a reconhecer padrões, não a encaixar toda
organização em categoria pura.
Uma universidade
aproxima-se da burocracia profissional porque depende de conhecimentos
especializados e padronização de habilidades. Uma pequena empresa pode usar
supervisão direta. Um projeto inovador pode operar como adhocracia. Grandes
grupos diversificados podem adotar divisões por negócio.
A contribuição de
Mintzberg está em relacionar coordenação, partes da organização e contexto. O
limite é que configurações reais são híbridas e mudam ao longo do tempo.
3.10 Estratégia como campo
plural
O pensamento estratégico
também se diversificou. Estratégia pode ser entendida como plano deliberado,
padrão emergente, posição no ambiente, perspectiva compartilhada ou manobra. A
formulação racional continua importante, mas decisões estratégicas também
resultam de aprendizagem, poder, cultura e processos históricos.
A escola do planejamento
enfatiza objetivos e programas. A escola do posicionamento analisa indústria e
concorrência. A visão baseada em recursos observa capacidades internas.
Perspectivas processuais estudam como estratégias são construídas na prática. A
disciplina não precisa escolher uma definição única, mas compreender quando
cada uma é útil.
3.11 Cultura organizacional
Cultura organizacional
refere-se a significados, valores, pressupostos e práticas compartilhados.
Edgar Schein propôs níveis: artefatos visíveis, valores declarados e
pressupostos básicos. Artefatos incluem linguagem, rituais, espaços e símbolos.
Valores declarados expressam o que a organização afirma. Pressupostos são
crenças profundamente incorporadas.
A cultura ajuda a explicar por que
regras semelhantes são praticadas de modos diferentes. Também influencia
interpretação de risco, autoridade e colaboração. Entretanto, organizações não
possuem necessariamente uma cultura única. Subculturas profissionais, regionais
e ocupacionais coexistem.
Programas de “mudança de cultura” precisam
evitar manipulação. Valores não mudam por slogans. Experiências, incentivos,
decisões e exemplos de liderança precisam ser coerentes. Também é necessário
preservar espaço para dissenso: alinhamento não deve significar silêncio.
3.12 Poder e política
nas organizações
Poder é a capacidade de
influenciar decisões, recursos, significados ou comportamentos. Pode derivar de
posição formal, conhecimento, controle de informação, relações externas,
reputação ou capacidade de mobilização. Política organizacional envolve ações
para construir apoio, negociar interesses e definir agendas.
Reconhecer poder não
significa reduzir toda organização a disputa. Significa compreender que
decisões não são puramente técnicas. Critérios, indicadores e prioridades
favorecem determinados interesses. A transparência sobre processos e a
existência de canais de participação reduzem arbitrariedade.
Michel Crozier estudou
como atores utilizam zonas de incerteza em burocracias. Quem controla
conhecimento difícil de substituir pode adquirir poder mesmo sem cargo elevado.
Isso ajuda a compreender dependências de especialistas e pessoas que dominam
sistemas antigos.
3.13 Teoria Institucional
A teoria institucional explica como
organizações buscam legitimidade e se adaptam a regras, normas e crenças
socialmente construídas. John Meyer e Brian Rowan mostraram que estruturas
formais podem funcionar como mitos racionalizados: práticas são adotadas porque
parecem adequadas e modernas, mesmo quando sua relação com resultados é
incerta.
Paul DiMaggio e Walter Powell
descreveram isomorfismo coercitivo, decorrente de leis e dependências; mimético,
baseado na imitação sob incerteza; e normativo, associado a profissões e
formação. Esses mecanismos ajudam a entender por que organizações de um mesmo
campo se tornam semelhantes.
A adoção formal pode ser desacoplada
da prática. Uma organização cria política, comitê ou sistema para demonstrar
conformidade, mas o cotidiano permanece inalterado. O desacoplamento pode
proteger operações de exigências contraditórias, mas também produzir simbolismo
vazio.
A teoria institucional é útil para
analisar certificações, governança, responsabilidade social, planejamento e
modismos. Seu limite aparece quando subestima interesses materiais e capacidade
de ação. Estudos posteriores enfatizam empreendedorismo institucional, mudança
e trabalho institucional.
3.14 Dependência de recursos
Jeffrey Pfeffer e Gerald Salancik
argumentaram que organizações dependem de recursos controlados por atores
externos. Essa dependência gera poder. Para reduzir incerteza, organizações
diversificam fornecedores, formam alianças, incorporam representantes, negociam
regulações e constroem reputação.
A perspectiva mostra que ambiente
não é apenas conjunto de condições técnicas. É espaço político. Uma organização
pequena dependente de um único financiador possui pouca autonomia. Uma
plataforma dominante pode impor regras a fornecedores. Estratégia inclui
administrar dependências e evitar concentração excessiva.
3.15 Custos de transação
Ronald Coase perguntou por que
empresas existem se mercados podem coordenar trocas. Oliver Williamson
desenvolveu a Economia dos Custos de Transação, analisando custos de buscar
informação, negociar, monitorar e fazer cumprir acordos. Transações variam em
especificidade de ativos, frequência e incerteza.
Quando ativos são muito específicos e
existe risco de oportunismo, integração hierárquica pode ser preferível ao
mercado. Em outras situações, contratos ou parcerias são adequados. A teoria
ajuda em decisões de terceirização, verticalização e governança.
Seus limites incluem tendência a
privilegiar eficiência econômica e tratar confiança, poder e direitos de forma
secundária. Uma decisão de terceirizar precisa considerar qualidade, trabalho
digno, conhecimento e responsabilidade pública, não apenas custo contratual.
3.16 Teoria da Agência
A Teoria da Agência analisa relações em
que uma parte, principal, delega trabalho a outra, agente. Quando objetivos
diferem e informação é assimétrica, surgem custos de monitoramento, incentivos
e risco.
A teoria influenciou governança
corporativa, remuneração executiva e controles. Entretanto, assumir oportunismo
como padrão pode produzir sistemas de vigilância e incentivos que enfraquecem
confiança. Governança precisa combinar controle, transparência, competência e
propósito.
Em organizações públicas, a cadeia de
delegação é mais complexa: cidadãs(os), representantes, gestoras(es),
servidoras(es) e prestadoras(es) possuem diferentes responsabilidades. Reduzir
a relação a contrato simples seria inadequado.
3.17 Ecologia Populacional
A ecologia organizacional, associada
a Michael Hannan e John Freeman, analisa populações de organizações. Em vez de
enfatizar adaptação interna, destaca processos de variação, seleção e retenção.
Ambientes favorecem determinadas formas, e muitas organizações não conseguem
mudar rapidamente por inércia estrutural.
A perspectiva ajuda a estudar
surgimento e desaparecimento de setores, taxas de fundação e sobrevivência. Seu
limite é reduzir a agência e tratar mudança como difícil demais. Organizações
podem aprender, cooperar e influenciar ambientes, embora enfrentem restrições.
3.18 Visão Baseada
em Recursos e capacidades
Edith Penrose
analisou a firma como conjunto de recursos produtivos e serviços gerenciais. A
Visão Baseada em Recursos, desenvolvida posteriormente, afirma que vantagens
podem decorrer de recursos valiosos, raros, difíceis de imitar e organizados
para uso.
Recursos incluem
conhecimento, reputação, rotinas, relações e tecnologia. Capacidades dinâmicas
referem-se à habilidade de perceber oportunidades, mobilizar recursos e
transformar a organização. A perspectiva complementa análises externas de
estratégia.
O risco é chamar
qualquer característica de recurso estratégico. A análise precisa demonstrar
como o recurso produz valor, como é mantido e quais dependências sociais o
sustentam.
3.19 Aprendizagem
organizacional e gestão do conhecimento
Aprendizagem
organizacional envolve mudanças em interpretações, rotinas e capacidades.
Argyris e Schön destacam ciclos de aprendizagem. Peter Senge popularizou a
ideia de organização que aprende, baseada em pensamento sistêmico, domínio
pessoal, modelos mentais, visão compartilhada e aprendizagem em equipe.
Ikujiro Nonaka e
Hirotaka Takeuchi discutiram criação de conhecimento por interação entre
conhecimento tácito e explícito. O modelo SECI descreve socialização,
externalização, combinação e internalização. Na prática, conhecimento não é
objeto facilmente transferível. Depende de experiência, linguagem, confiança e
contexto.
Gestão do
conhecimento inclui comunidades de prática, documentação, mentoria,
repositórios e aprendizagem após projetos. Sistemas digitais ajudam, mas não
substituem tempo e relações. Um banco de dados sem curadoria e uso torna-se
arquivo morto.
3.20 Perspectivas
críticas, feministas e decoloniais
Estudos críticos
em Administração questionam a ideia de que gestão é atividade neutra orientada
apenas por desempenho. Examinam dominação, exploração, controle, ideologia e
resistência. A tradição do processo de trabalho analisa como tecnologias e
métodos reorganizam autonomia e controle.
Perspectivas
feministas mostram que organizações foram construídas com padrões considerados
universais, mas frequentemente baseados em experiências masculinas e em divisão
desigual do trabalho de cuidado. Joan Acker descreveu organizações como
generificadas, nas quais cargos, horários e expectativas incorporam
pressupostos sobre disponibilidade e corpo.
Perspectivas
raciais e decoloniais analisam como colonialismo, escravidão, racismo e
hierarquias globais influenciam organizações, conhecimento e trabalho. No
Brasil, a história administrativa precisa considerar formação social,
desigualdades raciais, patrimonialismo, burocratização e lutas por direitos.
Essas abordagens
ampliam as perguntas: quem é reconhecido como sujeito competente? Quais
conhecimentos são considerados legítimos? Quem ocupa posições de decisão? Que
grupos suportam riscos? A resposta administrativa precisa incluir equidade,
acessibilidade, participação e reparação de barreiras.
3.21
Sustentabilidade e responsabilidade organizacional
Sustentabilidade
exige considerar dimensões ambientais, sociais e econômicas ao longo do tempo.
Organizações dependem de sistemas naturais e sociais, não apenas de mercados. A
análise sistêmica ajuda a identificar externalidades, cadeias e ciclos de vida.
Responsabilidade
não se limita a projetos filantrópicos. Envolve estratégia, operações, compras,
trabalho, governança e prestação de contas. Indicadores precisam evitar
maquiagem verde ou social. Metas devem ser verificáveis, relacionadas a
impactos materiais e acompanhadas por participação de grupos afetados.
3.22 Organizações
digitais, plataformas e algoritmos
Transformação
digital modifica comunicação, decisão, trabalho e modelos de negócio.
Plataformas coordenam relações entre múltiplos grupos e podem concentrar poder
por dados e efeitos de rede. Algoritmos classificam, recomendam e distribuem
tarefas.
As teorias
clássicas reaparecem em novas formas: padronização por software, controle de
tempos por aplicativos, burocracia automatizada e incentivos baseados em
métricas. Ao mesmo tempo, redes e equipes distribuídas ampliam possibilidades
de colaboração.
A análise
administrativa precisa perguntar como dados são coletados, quais critérios
orientam algoritmos, como erros podem ser contestados e quem responde por
decisões. Eficiência digital sem transparência pode ampliar desigualdades.
3.23 Síntese dos
conceitos fundamentais
Os conceitos estudados
formam um repertório integrado. Estruturalismo mostra complexidade e conflito;
comportamentalismo explica decisão e aprendizagem; sistemas destacam
interdependência e ambiente; contingência relaciona contexto e estrutura;
perspectivas contemporâneas analisam estratégia, cultura, poder, instituições,
recursos e conhecimento.
Nenhuma abordagem
elimina as anteriores. O desafio profissional consiste em combinar lentes com
coerência. Uma boa análise identifica o problema, escolhe conceitos adequados,
examina evidências, reconhece limites e propõe decisões que possam ser avaliadas.
4. Principais Temas e
Organização
A disciplina costuma ser organizada em módulos
que acompanham a ampliação progressiva do objeto da Administração. O semestre
pode começar com a passagem das abordagens clássicas para o estruturalismo,
avançar para comportamento e decisão, introduzir sistemas e contingência e
terminar com perspectivas contemporâneas. A sequência abaixo não é a única
possível, mas oferece um percurso coerente para uma disciplina de
aproximadamente sessenta horas.
4.1 Módulo 1 —
Transição do pensamento clássico para as abordagens posteriores
O primeiro módulo
recupera os principais problemas deixados pelas teorias anteriores.
Administração Científica e Teoria Clássica contribuíram para padronização,
planejamento e coordenação. A burocracia explicou autoridade racional-legal e
proteção por regras. A Escola das Relações Humanas mostrou que grupos e
relações sociais afetam o trabalho.
Entretanto,
organizações do pós-guerra eram maiores, mais diversificadas e conectadas a
ambientes complexos. A expansão de corporações, administrações públicas,
universidades e hospitais exigia novas explicações. Era necessário compreender
conflitos entre departamentos, decisões em condições de incerteza, tecnologias
variadas e influência de atores externos.
Conteúdos do módulo
•
limites do universalismo administrativo;
•
crescimento e diversificação das organizações;
•
separação entre propriedade e gestão;
•
expansão do setor de serviços e do Estado;
•
influência das ciências sociais;
•
passagem do sistema fechado ao sistema aberto;
•
surgimento de novos níveis de análise.
Atividade sugerida
A pessoa estudante pode construir uma
linha do tempo comparando acontecimentos históricos, transformações
organizacionais e teorias. O objetivo não é estabelecer causalidade simples,
mas perceber relações entre problemas sociais e perguntas acadêmicas. Por
exemplo, crescimento de conglomerados relaciona-se à discussão sobre estrutura
divisional; avanço da computação influencia estudos de decisão e informação;
movimentos sociais pressionam por novas leituras de autoridade e trabalho.
4.2 Módulo 2 —
Estruturalismo e análise das organizações
O segundo módulo
apresenta a organização como sistema social complexo. A análise deve superar a
oposição simplificada entre estrutura formal e relações humanas. Organizações
possuem objetivos múltiplos, coalizões, tipos de poder e relações
interorganizacionais.
Conteúdos do módulo
•
estrutura formal e informal;
•
conflito e cooperação;
•
tipologias organizacionais;
•
pessoa organizacional;
•
disfunções burocráticas;
•
deslocamento de objetivos;
•
cooptação e institucionalização;
•
beneficiárias(os) e prestação de contas;
•
burocracia representativa, imposta e simulada.
Quadro comparativo
|
Autora ou autor |
Problema observado |
Conceito central |
Aplicação atual |
|
Robert Merton |
Consequências não
intencionais das regras |
Disfunções e deslocamento
de objetivos |
Revisão de procedimentos e
indicadores |
|
Philip Selznick |
Transformação de
organizações por valores e interesses |
Institucionalização e
cooptação |
Identidade, legitimidade e
participação |
|
Alvin Gouldner |
Diferentes formas de
burocracia |
Padrões de aplicação das
regras |
Legitimidade e conformidade |
|
Amitai Etzioni |
Mecanismos de controle e
envolvimento |
Tipologia de poder |
Análise de organizações
diversas |
|
Blau e Scott |
Quem recebe os benefícios |
Tipos organizacionais |
Governança e prestação de
contas |
Problema para discussão
Uma universidade cria nova regra
de prestação de contas após auditoria. A norma exige documentos idênticos para
despesas simples e complexas. Servidoras(es) passam a dedicar tempo à
comprovação formal, mas os riscos materiais permanecem sem análise. Pela lente
de Merton, pode existir deslocamento de objetivo. Pela lente de Gouldner, é
necessário examinar se a regra é aceita, imposta ou apenas simulada. Pela lente
de Selznick, deve-se analisar como a auditoria e os grupos internos influenciam
a identidade institucional.
4.3 Módulo 3 —
Decisão e racionalidade limitada
O terceiro módulo
trata a decisão como núcleo da Administração. Em vez de pressupor cálculo
perfeito, trabalha com informação incompleta, atenção limitada, regras e
rotinas.
Conteúdos do módulo
•
racionalidade substantiva e processual;
•
racionalidade limitada;
•
satisfação em lugar de otimização;
•
níveis de aspiração;
•
busca local;
•
decisões programadas e não programadas;
•
premissas de decisão;
•
atenção organizacional;
•
coalizões e objetivos múltiplos;
•
lógica das consequências e lógica da adequação.
Roteiro de análise decisória
Uma decisão pode ser
organizada em sete etapas:
1. delimitar
o problema;
2. identificar
partes afetadas;
3. explicitar
critérios;
4. reunir
informação suficiente;
5. formular
alternativas viáveis;
6. escolher
e registrar justificativa;
7. acompanhar
resultados e revisar premissas.
O roteiro não elimina
racionalidade limitada, mas torna o processo mais transparente. Critérios
precisam ser priorizados quando entram em conflito. Prazo, custo, equidade,
segurança e qualidade podem apontar para alternativas diferentes.
Exemplo aplicado
Uma empresa precisa escolher entre manter
sistema próprio, contratar serviço em nuvem ou desenvolver solução híbrida. A
otimização completa exigiria prever custos, segurança, crescimento, dependência
de fornecedor e mudanças regulatórias por muitos anos. Como isso é impossível,
a equipe define requisitos mínimos, cenários, riscos críticos e condições de
revisão. A decisão satisfatória é aquela que atende aos critérios considerados
suficientes e preserva possibilidade de adaptação.
4.4 Módulo 4 —
Motivação, liderança e desenho do trabalho
O quarto módulo
examina como teorias comportamentais interpretam necessidades, incentivos,
participação e desenvolvimento. O objetivo não é ensinar uma fórmula de
motivação, mas comparar pressupostos e evidências.
Conteúdos do módulo
•
necessidades e condições de trabalho;
•
motivação intrínseca e extrínseca;
•
fatores higiênicos e motivacionais;
•
Teorias X e Y;
•
sistemas de liderança;
•
autonomia e responsabilidade;
•
enriquecimento de cargos;
•
grupos e elos de ligação;
•
maturidade e desenvolvimento;
•
justiça organizacional.
Cuidados de interpretação
Teorias populares podem ser
usadas de modo superficial. A hierarquia de Maslow não é teste para classificar
pessoas. A teoria de Herzberg não autoriza ignorar salário. A Teoria Y não
significa ausência de coordenação. Participação não pode ser apenas consulta
sem influência.
O módulo deve aproximar
motivação de desenho organizacional. Pessoas respondem a carga, recursos,
reconhecimento, sentido, segurança, oportunidades e relações. Intervenções
precisam atuar sobre condições, não apenas sobre atitude.
Atividade comparativa
A turma pode analisar uma política
de metas sob quatro perspectivas:
•
Herzberg: o trabalho oferece realização e
responsabilidade?
•
McGregor: quais pressupostos sobre
pessoas orientam o controle?
•
Likert: há comunicação e participação?
•
Argyris: a estrutura favorece maturidade
e aprendizagem?
A comparação mostra que um mesmo
instrumento pode ser interpretado de maneiras diferentes.
4.5 Módulo 5 —
Desenvolvimento Organizacional e mudança planejada
O quinto módulo
introduz diagnóstico participativo, pesquisa-ação, dinâmica de grupos e
consultoria de processos. A mudança é tratada como processo social, não como
simples anúncio.
Conteúdos do módulo
•
campo de forças;
•
pesquisa-ação;
•
mudança planejada;
•
diagnóstico organizacional;
•
formação de equipes;
•
feedback;
•
consultoria de processos;
•
resistência e participação;
•
aprendizagem de ciclo simples e duplo;
•
rotinas defensivas.
Ciclo de pesquisa-ação
Um ciclo básico pode conter:
1. contratação
e definição do problema;
2. coleta
de dados;
3. devolução
e interpretação coletiva;
4. escolha
de intervenção;
5. implementação;
6. avaliação;
7. aprendizagem
e novo ciclo.
O processo depende de confiança e
clareza. Dados não devem ser coletados sem explicar finalidade e uso. A
devolução precisa permitir contestação. Participantes não podem ser tratados
apenas como fontes de informação.
Resistência à mudança
Resistência não é necessariamente
irracionalidade. Pode sinalizar risco, perda de identidade, experiência
anterior negativa ou falta de recursos. A análise deve perguntar:
•
o que será perdido ou ameaçado?
•
quem participou da definição?
•
quais informações estão ausentes?
•
as condições permitem a mudança?
•
existem alternativas ou mecanismos de recurso?
Essa abordagem substitui rótulos por
diagnóstico.
4.6 Módulo 6 —
Organizações como sistemas abertos
O sexto módulo
apresenta a linguagem sistêmica e sua aplicação. A organização é analisada em
relação a entradas, processos, saídas, feedback e ambiente.
Conteúdos do módulo
•
sistema, subsistema e suprassistema;
•
fronteiras e permeabilidade;
•
entradas, transformação e saídas;
•
retroalimentação;
•
entropia negativa;
•
homeostase;
•
diferenciação e integração;
•
equifinalidade;
•
sinergia;
•
sistemas sociotécnicos.
Mapa sistêmico
Uma atividade útil é criar mapa com:
•
atores internos e externos;
•
recursos recebidos;
•
atividades de transformação;
•
resultados pretendidos e não pretendidos;
•
ciclos de feedback;
•
atrasos e dependências;
•
externalidades sociais e ambientais.
O mapa deve incluir relações, não apenas
lista de partes. Em um serviço de transporte, por exemplo, demanda, frota,
manutenção, trânsito, condições de trabalho e políticas urbanas formam ciclos.
Aumentar viagens sem ampliar manutenção pode gerar desgaste e queda futura da
capacidade.
Feedback positivo e negativo
Na linguagem sistêmica,
feedback negativo reduz desvios e estabiliza o sistema. Feedback positivo
reforça mudanças. Os termos não significam bom e ruim. Uma reclamação que
aciona correção é feedback estabilizador. Um crescimento de usuários que
aumenta valor da plataforma e atrai mais usuários é ciclo reforçador.
4.7 Módulo 7 — Abordagem
sociotécnica
Este módulo pode ser
estudado junto com sistemas ou separadamente. Seu foco é a interação entre
tecnologia, organização do trabalho e relações sociais.
Conteúdos do módulo
•
sistema técnico e sistema social;
•
otimização conjunta;
•
grupos semiautônomos;
•
variedade de tarefas;
•
significado e identidade do trabalho;
•
implantação de tecnologia;
•
automação e qualificação;
•
ergonomia e acessibilidade;
•
trabalho remoto e plataformas.
Estudo
breve
Uma empresa instala software de atendimento que exige preencher
vinte campos em cada chamada. O sistema oferece rastreabilidade, mas aumenta
tempo e obriga registrar informações irrelevantes. Para cumprir metas,
atendentes copiam respostas padrão. O problema não é apenas “resistência à
tecnologia”. A solução técnica foi desenhada sem considerar trabalho real,
linguagem, volume e finalidade dos dados.
Uma intervenção sociotécnica revisaria campos, envolveria
usuárias(os), testaria acessibilidade, adaptaria metas e avaliaria qualidade.
Tecnologia e organização seriam redesenhadas conjuntamente.
4.8 Módulo 8 —
Contingência: tecnologia, ambiente e estrutura
O oitavo módulo
apresenta pesquisas que demonstraram variação das formas organizacionais. A
questão central é o ajuste entre contexto e desenho.
Conteúdos do módulo
•
produção unitária, em massa e por processo;
•
estruturas mecanicistas e orgânicas;
•
ambiente estável e instável;
•
diferenciação e integração;
•
estratégia e estrutura;
•
variabilidade e analisabilidade das tarefas;
•
interdependência agrupada, sequencial e
recíproca;
•
tamanho e formalização;
•
incerteza e capacidade de processamento de
informação.
Matriz de contingência
|
Condição predominante |
Tendência de desenho |
Risco se aplicada de forma rígida |
|
Rotina e alto volume |
Padronização e automação |
Desumanização e
incapacidade diante de exceções |
|
Inovação e incerteza |
Papéis flexíveis e
comunicação lateral |
Ambiguidade e sobrecarga |
|
Alto risco regulado |
Regras, redundância e
rastreabilidade |
Excesso de conformidade
formal |
|
Conhecimento profissional |
Autonomia com padrões de
formação |
Fragmentação entre
especialidades |
|
Interdependência recíproca |
Equipes e ajuste mútuo |
Reuniões excessivas sem
decisão |
|
Diversificação de negócios |
Estrutura divisional |
Duplicação e competição
interna |
A matriz não substitui diagnóstico.
Organizações combinam condições. Um hospital possui áreas rotineiras,
atividades profissionais e situações de emergência. Diferentes mecanismos
coexistem.
4.9 Módulo 9 —
Configurações, desenho e coordenação
O nono módulo
consolida a discussão de estrutura. Em vez de tratar organograma como
representação completa, analisa mecanismos de coordenação e fluxos.
Conteúdos do módulo
•
supervisão direta;
•
ajuste mútuo;
•
padronização de processos, resultados e
habilidades;
•
estrutura simples;
•
burocracia mecanizada;
•
burocracia profissional;
•
forma divisionalizada;
•
adhocracia;
•
estruturas matriciais, em rede e por projetos;
•
centralização e descentralização.
Perguntas para desenho
organizacional
•
Qual trabalho precisa ser coordenado?
•
Onde está o conhecimento relevante?
•
Que decisões precisam de rapidez?
•
Quais riscos exigem controle?
•
Que unidades dependem umas das outras?
•
Como conflitos serão resolvidos?
•
Como a pessoa usuária atravessa o processo?
•
Como serão preservadas acessibilidade e
responsabilização?
Essas perguntas
evitam reorganizações baseadas apenas em desenho de caixas. Estrutura envolve
direitos de decisão, fluxos de informação, capacidades e relações.
4.10 Módulo 10 —
Cultura, poder e política
O décimo módulo amplia
a análise simbólica e política. Organizações são espaços de significado e
disputa.
Conteúdos do módulo
•
artefatos, valores e pressupostos;
•
subculturas;
•
socialização organizacional;
•
identidade e memória;
•
fontes de poder;
•
controle da agenda e da informação;
•
zonas de incerteza;
•
coalizões;
•
conflito e negociação;
•
silêncio e voz.
Cultura declarada e cultura
praticada
Uma organização pode declarar
colaboração, mas premiar competição individual. Pode defender inovação e punir
erro. Pode afirmar diversidade e manter barreiras de acesso. A análise cultural
compara discurso, decisões, rotinas e experiências.
Cultura não é desculpa para
comportamentos inadequados. Dizer “sempre foi assim” não legitima assédio,
discriminação ou informalidade prejudicial. Valores precisam ser compatíveis
com direitos e responsabilidade.
Poder visível e invisível
Poder visível aparece em decisões formais. Poder
menos visível atua na definição do que pode ser discutido e na formação de
percepções. Um problema pode permanecer fora da agenda porque não há dados,
canal de fala ou reconhecimento institucional.
A gestão democrática requer transparência,
pluralidade de informações, proteção contra retaliação e critérios de decisão.
4.11 Módulo 11 —
Teorias contemporâneas do ambiente e da governança
Este módulo
apresenta perspectivas que explicam relações entre organizações e ambiente por
mecanismos diferentes.
Conteúdos do módulo
•
teoria institucional;
•
dependência de recursos;
•
custos de transação;
•
teoria da agência;
•
ecologia organizacional;
•
redes e campos organizacionais;
•
governança;
•
legitimidade e reputação;
•
contratos e alianças;
•
conformidade simbólica e prática.
Comparação de lentes
|
Perspectiva |
Pergunta central |
Mecanismo destacado |
Exemplo |
|
Institucional |
Como obter legitimidade? |
Regras, normas e imitação |
Adoção de certificação
difundida |
|
Dependência de recursos |
Quem controla recursos
críticos? |
Poder e negociação |
Diversificação de
financiadores |
|
Custos de transação |
Como governar uma troca? |
Custos, incerteza e ativos
específicos |
Fazer internamente ou
terceirizar |
|
Agência |
Como alinhar principal e
agente? |
Informação, incentivo e
controle |
Governança de
executivas(os) |
|
Ecologia |
Por que formas sobrevivem
ou desaparecem? |
Seleção e inércia |
Mudança na população de
empresas |
As lentes podem gerar recomendações
diferentes. Uma parceria pode reduzir dependência, aumentar legitimidade e
diminuir custo, mas também criar risco de agência. O diagnóstico precisa
reconhecer múltiplos mecanismos.
4.12 Módulo 12 —
Estratégia, recursos, aprendizagem e conhecimento
O décimo segundo
módulo relaciona capacidades internas e construção da estratégia.
Conteúdos do módulo
•
estratégia deliberada e emergente;
•
posição e perspectiva;
•
recursos e competências;
•
capacidades dinâmicas;
•
aprendizagem organizacional;
•
conhecimento tácito e explícito;
•
comunidades de prática;
•
inovação;
•
memória e esquecimento organizacional;
•
exploração e aproveitamento.
Exploração e aproveitamento
James March distinguiu exploration,
ligada a busca, experimentação e descoberta, e exploitation, ligada ao
aproveitamento de conhecimentos existentes, refinamento e eficiência.
Organizações precisam das duas atividades.
Concentrar-se apenas em
aproveitamento melhora resultados imediatos, mas pode reduzir adaptação.
Investir apenas em exploração gera ideias sem consolidação. A gestão precisa
equilibrar horizontes, recursos e critérios de avaliação.
Conhecimento tácito e explícito
Conhecimento explícito
pode ser registrado em documentos, sistemas e manuais. Conhecimento tácito está
incorporado em experiência e prática. Transformar todo conhecimento em
documento é impossível. Aprendizagem depende de convivência, observação e
experimentação.
Uma política de sucessão
deve combinar documentação, mentoria, rotação e comunidades. A saída de uma
pessoa experiente não é resolvida apenas por solicitar um manual na última
semana.
4.13 Módulo 13 —
Perspectivas críticas, diversidade e desigualdades
Este módulo
examina como gestão se relaciona com poder social, identidades e desigualdades.
Conteúdos do módulo
•
controle e processo de trabalho;
•
managerialismo;
•
gênero e organização;
•
raça e racismo organizacional;
•
classe e precarização;
•
deficiência e capacitismo;
•
interseccionalidade;
•
colonialidade do conhecimento;
•
voz, participação e resistência;
•
direitos humanos no trabalho.
Organização generificada
Cargos são frequentemente
desenhados em torno de uma pessoa ideal disponível em tempo integral, sem
responsabilidades de cuidado e capaz de circular por espaços sem barreiras.
Essa neutralidade aparente pode excluir. Horários, critérios de promoção, linguagem
e redes informais precisam ser analisados.
Racismo organizacional
Racismo pode aparecer em
recrutamento, distribuição de oportunidades, avaliação, tratamento cotidiano e
representação em posições de liderança. Não se limita a atos individuais
explícitos. Processos aparentemente neutros podem reproduzir desigualdades históricas.
A Administração precisa produzir
dados, revisar critérios, criar canais de responsabilização e ampliar
participação. Diversidade sem mudança estrutural pode tornar-se apenas imagem
institucional.
Acessibilidade e desenho universal
Acessibilidade não é
adaptação tardia. Deve orientar processos, tecnologias, espaços e comunicação.
Um sistema incompatível com leitor de tela, uma reunião sem recursos de
comunicação ou um processo seletivo com barreiras desnecessárias excluem
pessoas.
A abordagem
contingencial não pode ser usada para relativizar direitos. Contexto orienta
meios, mas dignidade, não discriminação e acessibilidade são referências
normativas.
4.14 Módulo 14 —
Sustentabilidade, redes e responsabilidade
O módulo final
relaciona organizações a sistemas sociais e ecológicos mais amplos.
Conteúdos do módulo
•
externalidades;
•
partes interessadas;
•
cadeia de valor;
•
economia circular;
•
riscos climáticos;
•
responsabilidade social;
•
compras responsáveis;
•
transparência;
•
metas e indicadores;
•
greenwashing e social washing.
Análise de cadeia
Uma organização pode reduzir emissões
internas e, ao mesmo tempo, contratar fornecedores intensivos em carbono. Pode
melhorar indicadores próprios transferindo atividades precárias para terceiros.
A fronteira do sistema precisa incluir impactos relevantes.
Sustentabilidade exige governança, dados
e escolhas. Metas precisam ter linha de base, prazo, responsável, método de
verificação e plano de transição justa.
4.15 Organização
sugerida para um semestre
Uma
disciplina de sessenta horas pode ser distribuída da seguinte forma:
|
Unidade |
Tema |
Carga sugerida |
|
1 |
Transição e estruturalismo |
8 horas |
|
2 |
Decisão e comportamento |
10 horas |
|
3 |
Desenvolvimento Organizacional |
6 horas |
|
4 |
Sistemas e sociotécnica |
8 horas |
|
5 |
Contingência e desenho |
10 horas |
|
6 |
Cultura, poder e instituições |
8 horas |
|
7 |
Estratégia, aprendizagem e perspectivas críticas |
8 horas |
|
8 |
Integração e avaliação |
2 horas |
A distribuição deve
considerar o projeto pedagógico. O essencial é reservar tempo para comparação e
aplicação, não apenas exposição.
4.16 Metodologias de
ensino adequadas
A
disciplina pode combinar:
•
aulas dialogadas;
•
leitura orientada de textos clássicos;
•
mapas conceituais;
•
estudos de caso;
•
debates comparativos;
•
análise de filmes e notícias;
•
visitas ou entrevistas organizacionais;
•
exercícios de diagnóstico;
•
seminários;
•
portfólio reflexivo.
Textos clássicos precisam
ser contextualizados. A leitura integral de trechos selecionados ajuda a evitar
simplificações de manuais. Entretanto, deve ser acompanhada de acessibilidade
linguística, glossário e perguntas orientadoras.
4.17 Avaliação da aprendizagem
Uma
avaliação coerente mede compreensão, comparação e aplicação. Provas
exclusivamente baseadas em memorização de nomes são insuficientes. Podem ser
utilizados:
•
questões conceituais;
•
análise de situações;
•
comparação de teorias;
•
produção de diagnóstico;
•
apresentação de estudo de caso;
•
ensaio crítico;
•
atividade em grupo com reflexão individual.
Critérios precisam ser
transparentes. Uma rubrica pode avaliar precisão conceitual, uso de evidências,
coerência, consideração de limites e clareza da comunicação.
4.18 Matriz geral
de comparação das correntes
|
Corrente |
Unidade principal |
Problema central |
Contribuição |
Risco de uso superficial |
|
Estruturalista |
Organização e relações sociais |
Complexidade, conflito e burocracia |
Integra estrutura formal e informal |
Transformar tipologias em rótulos |
|
Comportamental |
Decisão, indivíduo e grupo |
Limites cognitivos, motivação e liderança |
Explica escolhas e aprendizagem |
Psicologizar problemas estruturais |
|
Desenvolvimento Organizacional |
Processo de mudança |
Como mudar com participação |
Pesquisa-ação e intervenção |
Simular participação |
|
Sistemas |
Organização e ambiente |
Interdependência e fluxo |
Visão integrada e feedback |
Usar linguagem vaga |
|
Contingência |
Ajuste entre variáveis |
Adequação de estrutura ao contexto |
Rejeita solução universal |
Responder apenas “depende” |
|
Institucional |
Campo e legitimidade |
Conformidade a normas e crenças |
Explica semelhanças e simbolismo |
Subestimar interesses materiais |
|
Dependência de recursos |
Relações externas |
Controle de recursos críticos |
Mostra poder no ambiente |
Reduzir tudo a dependência |
|
Custos de transação |
Trocas e governança |
Mercado, contrato ou hierarquia |
Apoia decisões de fazer ou contratar |
Ignorar direitos e confiança |
|
Aprendizagem |
Rotinas e conhecimento |
Como aprender e renovar capacidades |
Integra experiência e mudança |
Confundir informação com conhecimento |
|
Crítica |
Poder e desigualdade |
Dominação, exclusão e resistência |
Expõe pressupostos e impactos |
Criticar sem formular alternativas |
4.19 Perguntas
integradoras para cada tema
Ao
estudar qualquer corrente, a pessoa estudante pode utilizar o seguinte roteiro:
•
Qual era o contexto histórico?
•
Que problema a teoria procurou resolver?
•
Qual é a unidade de análise?
•
Como compreende pessoas e organizações?
•
Que evidências foram utilizadas?
•
Quais conceitos permanecem atuais?
•
Que limitações foram apontadas?
•
Como se relaciona com outras abordagens?
•
Que consequências éticas surgem?
•
Em quais situações profissionais é útil?
A repetição do
roteiro não produz respostas repetitivas; oferece uma estrutura de comparação.
O conteúdo de cada teoria muda, e a matriz ajuda a perceber diferenças.
5. Relação com outras matérias
História do Pensamento Administrativo II ocupa
posição integradora no curso. Seus conceitos reaparecem em disciplinas
quantitativas, jurídicas, humanas e tecnológicas. A relação não é apenas
temática. As teorias oferecem pressupostos que orientam ferramentas e decisões
em outras áreas.
5.1 Comportamento
Humano nas Organizações
A ligação mais
direta ocorre com Comportamento Humano nas Organizações. Motivação, liderança,
grupos, conflito, cultura e aprendizagem são aprofundados nessa matéria.
História do Pensamento fornece origem e evolução dos conceitos, evitando
tratá-los como técnicas isoladas.
Ao estudar
liderança, por exemplo, a pessoa estudante percebe a passagem de modelos
centrados em autoridade para abordagens situacionais, relacionais e
distribuídas. Também aprende que estilos dependem de estrutura, poder e
contexto.
5.2 Gestão de Pessoas I e II
Recrutamento, desenvolvimento,
avaliação e recompensas expressam teorias sobre comportamento e controle. Uma
avaliação individual baseada apenas em metas quantitativas aproxima-se de
pressupostos diferentes de um sistema participativo de desenvolvimento.
Racionalidade limitada ajuda a
analisar vieses de seleção. Justiça organizacional orienta avaliação.
Aprendizagem de ciclo duplo contribui para desenvolvimento. Perspectivas
críticas revelam barreiras de gênero, raça, deficiência e classe.
5.3 Estruturas e
Processos Organizacionais
Estrutura e
processos são temas centrais da contingência e de sistemas.
Departamentalização, centralização, formalização e coordenação não devem ser
escolhidas por preferência estética. Precisam corresponder ao trabalho, ao
ambiente e às interdependências.
O mapeamento de
processos ganha profundidade quando inclui feedback, fronteiras, regras
informais e pessoas usuárias. Um fluxograma mostra sequência, mas a teoria
explica por que a sequência existe e quais relações de poder mantém.
5.4 Planejamento e
Gestão Estratégica
Estratégia depende de
ambiente, recursos, instituições e aprendizagem. A abordagem contingencial
mostra que estrutura e estratégia precisam ser coerentes. A dependência de
recursos evidencia alianças e poder. A visão baseada em recursos analisa
capacidades internas. A teoria institucional explica pressões por legitimidade.
O planejamento deixa de
ser previsão perfeita e torna-se processo de escolha, experimentação e revisão.
Estratégias podem emergir de práticas, não apenas de documentos formais.
5.5 Sistemas
Integrados de Gestão e Administração de Sistemas de Informação
Sistemas de
informação estruturam o que é visível e decidível. Ao definir campos,
permissões e relatórios, incorporam regras. A teoria da decisão ajuda a
distinguir automação de apoio. A sociotécnica mostra que tecnologia precisa ser
desenhada com trabalho e competências.
A teoria
institucional explica adoção de sistemas por pressão ou imitação. A dependência
de recursos analisa fornecedores e plataformas. Custos de transação apoiam
decisões de desenvolver, adquirir ou contratar.
5.6 Gestão da Produção e
Logística
Produção e Logística
utilizam padronização, capacidade, qualidade e fluxo. A teoria da contingência
relaciona tecnologia e estrutura. Sistemas destacam interdependência e
feedback. A sociotécnica integra automação, ergonomia e equipes.
Cadeias logísticas também
envolvem dependência de fornecedores, riscos ambientais e responsabilidade
social. A fronteira da análise deve incluir terceirização e externalidades.
5.7 Gestão de
Marketing e Comportamento do Consumidor
Marketing depende
de leitura ambiental e comportamento. Teoria institucional ajuda a compreender
legitimidade de marcas. Cultura explica significados. Redes e plataformas
reorganizam relações com consumidoras(es).
Racionalidade
limitada também se aplica ao consumo. Pessoas utilizam atalhos e informações
incompletas. A Administração precisa considerar ética na persuasão, proteção de
dados e acessibilidade da comunicação.
5.8 Gestão Financeira e
Orçamento
Decisões financeiras não são
puramente matemáticas. Premissas, horizonte e risco dependem de julgamento.
Racionalidade limitada orienta cenários e revisão. Teoria da agência analisa
conflitos entre proprietárias(os), gestoras(es) e outras partes.
Orçamentos também funcionam
como instrumentos políticos. A alocação de recursos expressa prioridades. Metas
financeiras podem produzir comportamento disfuncional se forem isoladas de
qualidade e responsabilidade.
5.9 Economia e análise
ambiental
Microeconomia e Macroeconomia
oferecem modelos de mercado, incentivos e ciclos. História do Pensamento
Administrativo mostra como organizações respondem, negociam e influenciam
ambientes. Custos de transação aproximam Economia e Administração.
A ecologia organizacional
analisa populações; dependência de recursos, poder; teoria institucional,
normas e legitimidade. Essas lentes ampliam a visão econômica.
5.10 Estado e Administração
Pública
Organizações públicas
enfrentam múltiplas finalidades, controle legal e responsabilidade democrática.
Burocracia protege impessoalidade, mas pode gerar disfunções. Estruturalismo
analisa conflitos e beneficiárias(os). Sistemas mostram relações entre políticas
e órgãos. Institucionalismo explica conformidade e legitimidade.
Teorias de agência precisam
ser adaptadas à complexidade pública. Cidadania não é cliente simples.
Eficiência deve conviver com equidade, participação, transparência e
continuidade.
5.11 Legislação e ética
Regras jurídicas definem limites e
direitos, enquanto teorias administrativas ajudam a desenhar implementação.
Formalização não é sinônimo de legalidade automática. Procedimentos precisam
ser claros, proporcionais e acessíveis.
Perspectivas críticas e comportamentais
ajudam a analisar assédio, discriminação, conflito de interesses e canais de
denúncia. Ética não é apenas código, mas estrutura de incentivos, exemplo e
responsabilização.
5.12 Métodos de Pesquisa e TCC
As teorias oferecem categorias
para formular problemas e analisar dados. Um TCC sobre trabalho remoto pode
utilizar contingência, sociotécnica ou cultura. Uma pesquisa sobre adoção de
política pode recorrer à teoria institucional. Um estudo sobre terceirização
pode usar custos de transação e perspectiva crítica.
A escolha do referencial precisa
ser coerente com pergunta, método e nível de análise. Acumular teorias sem
integração dificulta interpretação.
5.13 Gestão Ambiental
e sustentabilidade
A teoria dos sistemas
é base para analisar ciclos, impactos e interdependências. Partes interessadas,
institucionalismo e dependência de recursos explicam pressões ambientais.
Estratégia e capacidades mostram como integrar sustentabilidade à operação.
A disciplina ajuda a
evitar ações isoladas. Sustentabilidade precisa estar em governança, compras,
produção, logística, pessoas e inovação.
5.14 Relação interdisciplinar
História do Pensamento
Administrativo II dialoga com Sociologia, Psicologia, Economia, Ciência
Política, Antropologia, Engenharia, Direito e Ciência da Informação. Essa
interdisciplinaridade não reduz a Administração. Mostra que organizar envolve
fenômenos humanos, técnicos e institucionais.
Profissionais precisam traduzir
conhecimentos entre áreas. A disciplina oferece linguagem para construir essa
integração.
6. Aplicações Práticas
e Profissionais
As teorias estudadas tornam-se relevantes
quando ajudam a compreender e transformar situações. A aplicação não é cópia de
receita. Consiste em selecionar conceitos, produzir diagnóstico, formular
alternativas e acompanhar resultados.
6.1 Diagnóstico organizacional
Um diagnóstico começa pela
definição do problema e das evidências. A abordagem estruturalista orienta
examinar regras, objetivos, conflitos e grupos. A comportamental investiga
decisões, percepções e aprendizagem. Sistemas mapeiam fluxos e ambiente. Contingência
avalia adequação. Cultura e poder revelam significados e interesses.
Um
roteiro profissional pode incluir:
•
escopo e finalidade;
•
partes afetadas;
•
documentos e indicadores;
•
entrevistas e observação;
•
mapa de processo;
•
hipóteses teóricas;
•
análise de causas e relações;
•
alternativas;
•
riscos e impactos;
•
plano de acompanhamento.
O diagnóstico deve evitar
responsabilizar pessoas individualmente antes de examinar estruturas e
condições.
6.2 Redesenho de processos
Processos atravessam departamentos.
A teoria dos sistemas ajuda a identificar entradas, saídas e feedback. Thompson
orienta analisar interdependência. Merton alerta para regras transformadas em
fins. Sociotécnica integra tecnologia e trabalho.
Ao redesenhar, é necessário ouvir
quem executa e quem utiliza. Indicadores devem medir resultado real, não apenas
etapa interna. Exceções precisam de tratamento transparente.
6.3 Desenho de estruturas
Uma reorganização pode utilizar
princípios contingenciais. Ambientes estáveis permitem maior formalização;
inovação exige comunicação lateral. Trabalho profissional depende de
habilidades; rotina, de processos. Estratégia de diversificação pode exigir unidades
com autonomia.
A prática inclui definir direitos de
decisão, mecanismos de coordenação, interfaces e critérios de escalonamento. O
organograma é apenas parte do desenho.
6.4 Implantação de tecnologia
Projetos digitais frequentemente
falham por tratar implantação como instalação. A abordagem sociotécnica exige
analisar tarefas, competências, carga, acessibilidade e confiança. A teoria
institucional pergunta se a tecnologia foi adotada por necessidade ou imitação.
Dependência de recursos avalia fornecedores.
Um projeto responsável inclui
pesquisa com usuárias(os), teste piloto, proteção de dados, treinamento, canal
de suporte e avaliação de efeitos. Algoritmos que afetam direitos precisam de
transparência e revisão.
6.5 Gestão da mudança
O Desenvolvimento Organizacional oferece
métodos de diagnóstico e participação. Argyris ajuda a identificar rotinas
defensivas. Cultura explica resistências ligadas à identidade. Poder mostra
quem ganha e perde.
Um plano de mudança deve comunicar
razões, reconhecer impactos, criar participação real, oferecer recursos e
definir avaliação. Nem toda resistência deve ser vencida; algumas objeções
melhoram a proposta.
6.6 Tomada de decisão
gerencial
A racionalidade limitada
orienta decisões com critérios explícitos e cenários. Equipes podem reduzir
pontos cegos quando possuem diversidade e segurança para discordar. Registros
ajudam a revisar premissas.
Para decisões recorrentes,
regras e sistemas podem apoiar. Para situações inéditas, recomenda-se ampliar
informação e experimentar. Decisões irreversíveis exigem maior cautela;
decisões reversíveis podem ser testadas.
6.7 Gestão de pessoas
As teorias comportamentais ajudam a
desenhar trabalho, liderança e desenvolvimento. A aplicação começa por
condições dignas, clareza e justiça. Programas de motivação não substituem
recursos e respeito.
Avaliação de desempenho deve considerar
contexto, cooperação e qualidade. Metas exclusivamente individuais podem
destruir trabalho coletivo. Aprendizagem requer tempo, feedback e oportunidade
de experimentar.
6.8 Gestão de conflitos
Conflitos podem ser diagnosticados por
objetivos, recursos, papéis, informação e relacionamento. Follett,
estruturalismo e perspectivas políticas ajudam a construir soluções
integrativas e regras de negociação.
A mediação precisa proteger pessoas em
relações assimétricas. Assédio e discriminação não devem ser tratados como
simples conflito entre iguais. Nesses casos, são necessários acolhimento,
apuração e responsabilização conforme normas.
6.9 Governança e
prestação de contas
Teoria da agência orienta
transparência e controle; institucionalismo, legitimidade; estruturalismo,
beneficiárias(os); teoria crítica, desigualdade. Governança define quem decide,
quem acompanha e como contestar.
Boas estruturas combinam
competências, informação, controles proporcionais, participação e
independência. Excesso de controle pode gerar formalismo; falta de controle,
arbitrariedade.
6.10 Compras, contratos
e terceirização
Custos de transação
ajudam a decidir entre fazer, contratar ou cooperar. A análise inclui
especificidade, incerteza e capacidade de monitoramento. Dependência de
recursos avalia concentração de fornecedores.
A decisão deve
considerar continuidade, qualidade, conhecimento, direitos trabalhistas,
acessibilidade, impactos ambientais e responsabilidade. Menor preço não
equivale ao menor custo total.
6.11 Estratégia e adaptação
A estratégia pode combinar análise
externa, recursos internos e aprendizagem. Contingência ajuda a ajustar
estrutura. Teoria institucional mostra expectativas. Capacidades dinâmicas
orientam renovação.
Uma prática útil é trabalhar com
hipóteses estratégicas e indicadores de validação. O plano deve ser revisado
quando premissas mudam, sem abandonar propósito a cada oscilação.
6.12
Inovação
Inovação exige exploração e aproveitamento.
Estruturas orgânicas favorecem experimentação, mas processos de segurança
continuam necessários. Equipes precisam de autonomia, recursos e conexão com
usuárias(os).
Portfólios permitem combinar iniciativas de curto
e longo prazo. Critérios de aprendizagem devem complementar retorno financeiro
inicial. Falhas precisam ser analisadas, não romantizadas.
6.13 Cultura e comunicação
Mudança cultural ocorre por decisões
coerentes, sistemas e experiências. A comunicação precisa reconhecer
contradições. Campanhas sem mudança prática produzem cinismo.
Diagnósticos culturais podem
utilizar entrevistas, histórias, rituais e análise de decisões. O objetivo não
é impor uniformidade, mas alinhar práticas a valores e direitos.
6.14 Organizações públicas
Na Administração Pública, as teorias
ajudam a equilibrar legalidade, capacidade, participação e resultados. Sistemas
mostram articulação entre órgãos. Contingência orienta desenho conforme
serviço. Institucionalismo explica respostas a controle e reputação.
A pessoa gestora pública precisa
distinguir burocracia protetora de formalismo. Simplificar não significa
eliminar garantias. Digitalizar não significa apenas converter papel em
formulário eletrônico.
6.15 Organizações
do terceiro setor e coletivos
Organizações
sociais dependem de financiadores, voluntariado e legitimidade comunitária.
Etzioni ajuda a analisar poder normativo. Dependência de recursos mostra riscos
de desvio de missão. Governança participativa protege finalidade.
A
profissionalização pode fortalecer gestão, mas não deve apagar conhecimentos
comunitários. Indicadores precisam representar impacto e participação, não
apenas exigências de financiadores.
6.16 Empresas familiares
Empresas familiares combinam sistemas
de família, propriedade e gestão. Autoridade formal pode divergir de influência
afetiva. Sucessão envolve identidade, poder e capacidade.
Teorias de governança, cultura e
contingência ajudam a criar acordos, papéis e fóruns. Profissionalização não
significa excluir família, mas definir critérios e responsabilidades.
6.17 Trabalho remoto e híbrido
Trabalho remoto modifica
fronteiras, coordenação e comunicação. A contingência mostra que nem toda
atividade é adequada ao mesmo regime. Sociotécnica destaca infraestrutura,
ergonomia e ferramentas. Cultura e poder revelam riscos de invisibilidade e
vigilância.
A gestão deve definir
resultados, horários de contato, acessibilidade, apoio e direito à desconexão.
Monitoramento invasivo pode reduzir confiança e produzir dados sem significado.
6.18 Plataformas e
trabalho algorítmico
Plataformas distribuem
tarefas, preços e avaliações por sistemas. A teoria da agência, dependência e
crítica ajuda a analisar assimetria. Trabalhadoras(es) podem ter autonomia
formal, mas pouca capacidade de negociar regras.
A Administração precisa
considerar transparência algorítmica, contestação, proteção social e qualidade
dos dados. Eficiência não justifica opacidade.
6.19 Diversidade, equidade
e inclusão
Perspectivas críticas
orientam revisão de recrutamento, promoção, remuneração e clima. A aplicação
deve combinar dados quantitativos e escuta. Representatividade é necessária,
mas insuficiente sem mudança de processos.
Acessibilidade deve ser
incorporada desde o desenho. Canais de denúncia precisam ter proteção,
acolhimento e fluxo. Lideranças devem ser responsabilizadas por ambiente de
trabalho.
6.20 Sustentabilidade
A teoria dos sistemas amplia fronteiras e
identifica externalidades. Dependência de recursos analisa vulnerabilidade
climática. Institucionalismo ajuda a distinguir pressão legítima de adoção
simbólica.
A prática envolve inventário de impactos,
metas, governança, compras, inovação e transição. Indicadores ambientais e
sociais precisam integrar decisão, não ficar isolados em relatório.
6.21 Competências
profissionais desenvolvidas
Ao
dominar a disciplina, a pessoa administradora desenvolve:
•
pensamento sistêmico;
•
análise crítica;
•
decisão sob incerteza;
•
diagnóstico organizacional;
•
comparação de alternativas;
•
comunicação conceitual;
•
facilitação de aprendizagem;
•
leitura de ambiente e poder;
•
desenho de estruturas e processos;
•
responsabilidade ética.
Essas
competências são transferíveis entre setores e funções.
7. Exemplo Prático ou
Estudo de Caso
7.1 O caso da
Rede Integra: crescimento, tecnologia e perda de coordenação
A Rede Integra é
uma organização fictícia criada para oferecer serviços de orientação
profissional, formação e encaminhamento ao emprego. Ela começou como uma
pequena associação comunitária em uma capital brasileira. Durante os primeiros
anos, uma equipe de doze pessoas atendia presencialmente cerca de oitocentas
pessoas por ano. A coordenação era informal, as decisões eram tomadas em
reuniões semanais e quase todas(os) conheciam o processo completo.
O projeto ganhou
reconhecimento e passou a receber recursos públicos, doações empresariais e
apoio de fundações. Em oito anos, a Rede Integra abriu unidades em seis
municípios, contratou 240 profissionais, criou plataforma digital e passou a
atender mais de sessenta mil pessoas por ano. Sua atuação foi organizada em
quatro programas: orientação inicial, formação, conexão com empregadoras(es) e
acompanhamento após contratação.
O crescimento
trouxe resultados, mas também problemas. Cada unidade desenvolveu práticas
próprias. A sede produziu manuais, porém atualizações eram enviadas por e-mail
e mensagens. A plataforma digital foi contratada de uma empresa de tecnologia
que prometia padronização e inteligência de dados. O sistema passou a
classificar pessoas atendidas por “probabilidade de colocação” e sugerir
trilhas de formação.
Financiadores
valorizavam número de encaminhamentos e contratações. A direção criou meta
mensal por unidade. O indicador considerava contratação registrada em até
noventa dias, sem acompanhar duração, qualidade do vínculo ou adequação do
trabalho. Unidades que atendiam regiões com maior oferta de empregos alcançavam
metas. Unidades em territórios vulnerabilizados ficavam abaixo e eram
pressionadas.
Para melhorar
desempenho, algumas equipes passaram a priorizar pessoas classificadas como
“alta probabilidade”. Pessoas com deficiência, longos períodos de desemprego,
baixa escolaridade ou responsabilidades de cuidado recebiam menos convites para
vagas porque exigiam acompanhamento mais intenso. O sistema não informava
claramente como o risco era calculado. Profissionais começaram a desconfiar que
o algoritmo reproduzia desigualdades dos dados históricos.
Ao mesmo tempo, a
organização enfrentava alta rotatividade. A política de remuneração era
semelhante entre municípios, mas condições de trabalho variavam. Algumas
unidades funcionavam em espaços acessíveis; outras, em prédios sem elevador. A
sede divulgava valores de inclusão, respeito e inovação, mas profissionais
diziam que as decisões importantes chegavam prontas. Reuniões de escuta eram
realizadas, porém raramente havia retorno.
A equipe de
Tecnologia defendia que a plataforma precisava ser utilizada sem adaptações
locais para garantir comparabilidade. As coordenações territoriais argumentavam
que as realidades eram diferentes. A área de Captação de Recursos pressionava
por indicadores simples que pudessem ser comunicados a financiadores. A equipe
de Acessibilidade defendia revisão do algoritmo e dos espaços. Finanças
alertava que o orçamento estava comprometido.
Uma auditoria
identificou inconsistências nos registros e recomendou mais controles. A
direção respondeu criando vinte novas validações obrigatórias na plataforma. O
tempo de atendimento aumentou. Profissionais passaram a preencher campos depois
das reuniões ou copiar textos padronizados. A qualidade dos dados não melhorou,
embora a taxa de preenchimento tenha subido.
A presidente da
organização propôs contratar consultoria para “mudar a cultura” e “aumentar o
engajamento”. Parte do conselho defendia centralizar decisões e substituir
coordenações com baixo desempenho. Outra parte sugeria dar autonomia total às
unidades. A empresa fornecedora ofereceu novo módulo de monitoramento, com
painel de produtividade individual e alertas automáticos.
Diante da crise,
o conselho criou um grupo de diagnóstico com representantes da sede, unidades,
pessoas atendidas, organizações parceiras e especialistas. O grupo recebeu seis
meses para apresentar proposta. A seguir, o caso será analisado pelas principais
teorias da disciplina.
7.2 Delimitação do problema
O
primeiro cuidado é não reduzir o caso a falta de engajamento. Os sintomas
incluem:
•
metas desiguais entre territórios;
•
priorização de casos considerados fáceis;
•
possível discriminação algorítmica;
•
rotatividade;
•
conflito entre padronização e adaptação;
•
normas fragmentadas;
•
baixa confiança;
•
crescimento da carga administrativa;
•
dependência de fornecedor;
•
distância entre valores declarados e práticas;
•
pressão de financiadores;
•
barreiras de acessibilidade.
Esses sintomas estão conectados. A
meta influencia comportamento; o algoritmo influencia prioridade; o contrato
limita mudanças; os financiadores influenciam indicadores; a auditoria aumenta
formalização; a cultura de baixa participação reduz aprendizagem. Uma causa
única seria insuficiente.
O grupo define como problema
central: a Rede Integra cresceu sem desenvolver mecanismos de coordenação,
governança e aprendizagem compatíveis com sua diversidade territorial,
tornando-se dependente de indicadores e tecnologias que distorcem a missão e
ampliam desigualdades.
Essa formulação ainda é hipótese.
Precisa ser testada com dados.
7.3 Análise estruturalista
O estruturalismo orienta examinar
organização formal e informal, objetivos, grupos, tipos de poder e
beneficiárias(os).
Formalmente, a Rede Integra possui
missão social, programas padronizados e hierarquia. Informalmente, unidades
criaram adaptações para atender territórios. Algumas adaptações podem ser
inovação; outras, inconsistência. O diagnóstico deve documentar ambas sem
assumir que formal é correto e informal é desvio.
Merton ajuda a identificar deslocamento
de objetivos. O indicador de contratação foi criado para representar
impacto, mas tornou-se finalidade. Profissionais são avaliadas(os) pelo número,
não pela qualidade ou equidade. O preenchimento da plataforma também se
transformou em objetivo independente da utilidade do dado.
A criação de validações após
auditoria pode produzir incapacidade treinada. Equipes aprendem a cumprir
campos, mesmo quando o processo não melhora. A regra gera conformidade ritual e
consumo de tempo.
Selznick permite analisar
institucionalização. A Rede Integra construiu identidade comunitária e
compromisso com inclusão. O crescimento e a dependência de financiadores
transformaram prioridades. A missão continua no discurso, mas práticas foram
adaptadas à lógica de captação.
A presença de representantes no
grupo pode ser cooptação ou participação real. Será cooptação se forem
incluídos apenas para legitimar decisão já tomada. Será participação se tiverem
acesso a informação, capacidade de propor e influência.
Etzioni ajuda a examinar poder. A
organização utiliza poder remunerativo por metas e contratos, poder normativo
por missão e identificação e elementos coercitivos quando ameaça substituir
coordenações. O envolvimento de profissionais pode passar de moral para
calculista ou alienado quando valores são usados sem correspondência prática.
Blau e Scott colocam a pergunta:
quem é a principal beneficiária ou beneficiário? A organização foi criada para
pessoas atendidas, mas indicadores parecem responder a financiadores e
reputação. A governança precisa recolocar usuárias(os) no centro sem ignorar
sustentabilidade financeira.
A recomendação estruturalista
inclui revisar objetivos, tipologias de serviço, regras, beneficiárias(os),
conflitos e canais de prestação de contas. A organização precisa reconhecer que
diferentes territórios exigem respostas diferentes, mas também garantir padrões
de direitos.
7.4 Análise
comportamental e decisória
A teoria da decisão
mostra que o conselho não possui informação completa. A proposta de centralizar
ou descentralizar totalmente simplifica o problema em alternativas extremas.
Essa simplificação pode resultar de racionalidade limitada e pressão de tempo.
O grupo deve
transformar a decisão em processo. Primeiro, explicitar critérios: impacto,
equidade, qualidade, sustentabilidade, acessibilidade, proteção de dados e
capacidade de aprendizagem. Depois, construir alternativas intermediárias, como
padrões mínimos comuns com autonomia territorial dentro de limites.
O algoritmo é também um
sistema de premissas de decisão. Ao classificar “probabilidade de colocação”,
direciona atenção. Mesmo que não ordene explicitamente excluir pessoas, sua
arquitetura cria incentivos. A pessoa profissional decide em ambiente estruturado
pela plataforma e pela meta.
Simon orienta
distinguir decisões programadas e não programadas. Agendamento ou confirmação
de presença pode ser automatizado. Priorização de pessoas em situação complexa
não deve ser tratada como rotina sem supervisão e possibilidade de contestação.
March e Cyert ajudam a
entender a coalizão. Captação, Tecnologia, Finanças, Acessibilidade e unidades
possuem objetivos diferentes. A meta organizacional é resultado de negociação,
não entidade única. A proposta precisa criar mecanismos para lidar com conflitos,
não fingir consenso.
McGregor permite
analisar pressupostos da direção. A oferta de monitoramento individual sugere
desconfiança e Teoria X. Pode criar ciclo de controle e passividade. A
alternativa participativa deve oferecer autonomia com recursos e
responsabilização.
Herzberg mostra que
campanha de engajamento não resolverá condições inadequadas. Espaço
inacessível, sobrecarga e falta de retorno são fatores concretos. Enriquecer o
trabalho exige participação, aprendizagem e reconhecimento.
Argyris identifica
aprendizagem de ciclo simples nas validações adicionais: o sistema corrige erro
de preenchimento sem questionar por que o indicador é inadequado. O ciclo duplo
exige revisar missão, metas e premissas de classificação.
Rotinas defensivas
podem aparecer quando áreas evitam discutir discriminação por medo de
responsabilização. O grupo precisa criar ambiente em que riscos sejam nomeados
sem negar responsabilidades.
7.5 Análise sistêmica
A Rede Integra é sistema aberto. Recebe
recursos de financiadores, políticas públicas, empresas e comunidades. Produz
serviços, dados, contratações, reputação e impactos. O diagnóstico precisa
mapear fluxos e feedback.
O atual indicador fornece feedback
incompleto. Mostra contratação em noventa dias, mas não qualidade, permanência
ou equidade. Como o sistema reage ao indicador, produz comportamento que
melhora o número e piora a missão. É um ciclo de retroalimentação disfuncional.
A diferenciação territorial é necessária
porque mercados de trabalho variam. Entretanto, a integração é fraca. A sede
tenta integrar por plataforma e regras, mas faltam comunidades de prática,
coordenação lateral e indicadores contextualizados.
A fronteira do sistema foi definida de
modo estreito. O sucesso termina no registro da contratação. Para avaliar
impacto, é necessário incluir permanência, condições de trabalho, satisfação,
acessibilidade e efeitos sobre famílias e territórios.
A entropia aparece na perda de
conhecimento por rotatividade, fragmentação de manuais e desconfiança. A
organização precisa de memória, formação e redes de aprendizagem.
A equifinalidade permite admitir
diferentes caminhos territoriais para alcançar inclusão profissional. Não é
necessário que todas as unidades utilizem a mesma sequência, desde que
respeitem padrões de direitos, qualidade e transparência.
7.6 Análise sociotécnica
O sistema técnico e o sistema social
foram desenhados separadamente. A plataforma impõe campos e classificação sem
refletir diversidade do atendimento. Profissionais criam adaptações, mas são
avaliadas(os) pela conformidade.
A otimização conjunta requer envolver
equipes e pessoas atendidas no redesenho. O grupo deve observar atendimentos,
testar usabilidade, revisar linguagem, avaliar compatibilidade com tecnologias
assistivas e analisar tempo de preenchimento.
O algoritmo precisa de auditoria.
Devem ser conhecidos dados utilizados, variáveis, taxas de erro e impacto entre
grupos. Não basta afirmar que o modelo é neutro. Se dados históricos refletem
discriminação, a previsão pode reproduzi-la.
A organização deve decidir quais
decisões podem ser apoiadas por algoritmo e quais exigem julgamento.
Classificação não pode reduzir acesso. Pode ser mais adequado usar dados para
identificar necessidade de apoio, e não probabilidade de sucesso.
A dependência do fornecedor é
problema sociotécnico e estratégico. A equipe interna precisa desenvolver
capacidade para compreender o sistema, negociar mudanças e portar dados.
7.7 Análise contingencial
O conflito entre padronização total
e autonomia total é resolvido pela contingência. Unidades enfrentam ambientes
diferentes. Mercado de trabalho, transporte, escolaridade, rede de apoio e
políticas municipais variam. Metas idênticas ignoram contingências.
Ao mesmo tempo, direitos não podem
variar livremente. A organização precisa definir núcleo comum: não
discriminação, acessibilidade, proteção de dados, critérios de atendimento,
registro mínimo e possibilidade de recurso. Métodos, parcerias e trilhas podem
ser adaptados.
Burns e Stalker sugerem que a sede
adotou estrutura mecanicista em contexto complexo. Comunicação vertical e
regras detalhadas não acompanham variação territorial. Mecanismos orgânicos,
como equipes intermunicipais e papéis de integração, seriam úteis.
Lawrence e Lorsch mostram que
diferenciação exige integração. Unidades locais desenvolvem conhecimento; sede
mantém visão de conjunto. Integradores podem ajudar sem retirar autonomia.
Reuniões precisam ter finalidade e autoridade.
Thompson indica interdependência
recíproca entre formação, empregadoras(es), orientação e acompanhamento.
Sequências rígidas não capturam casos que precisam retornar a etapas. A
plataforma deve permitir ciclos.
A contingência também deve orientar
indicadores. Unidades podem ter metas ajustadas por contexto, combinando
indicadores comuns e específicos. Comparações precisam considerar composição do
público e oportunidades locais.
7.8 Análise cultural e
política
A cultura declarada valoriza
inclusão, inovação e respeito. A cultura praticada premia números e
centralização. Essa distância produz cinismo. A mudança cultural não começa por
campanha, mas por decisão coerente.
Subculturas existem. A equipe
de Tecnologia valoriza consistência de dados; unidades, flexibilidade;
Captação, comunicação; Acessibilidade, direitos; Finanças, sustentabilidade.
Nenhuma perspectiva é irrelevante. O desafio é criar negociação e propósito comum.
Poder está distribuído de
forma desigual. Financiadores controlam recursos. A fornecedora controla
tecnologia. A sede controla regras. Profissionais controlam conhecimento do
atendimento. Pessoas atendidas possuem pouca influência formal.
Zonas de incerteza incluem o
algoritmo, contratos e dados territoriais. Quem controla essas áreas pode
definir agenda. O grupo de diagnóstico precisa garantir acesso a contratos,
critérios e bases.
A política não deve ser
eliminada, mas institucionalizada por fóruns, critérios e transparência.
Conflitos precisam ser tratados abertamente.
7.9 Análise institucional
A Rede Integra está submetida a
pressões coercitivas de contratos e auditorias, normativas de profissionais e
miméticas de organizações que adotam plataformas. A contratação de tecnologia
pode ter sido parcialmente motivada por legitimidade: parecer moderna e
orientada por dados.
O desacoplamento aparece entre
políticas de inclusão e práticas de priorização. Também aparece entre campos
preenchidos e qualidade real. A organização cumpre formalmente exigências, mas
o cotidiano diverge.
O objetivo não é eliminar toda
dimensão simbólica. Políticas e certificações podem orientar mudança. É
necessário acoplar compromisso e prática por recursos, indicadores e
responsabilização.
7.10 Dependência
de recursos e governança externa
A dependência de
poucos financiadores reduz autonomia. Indicadores simples são aceitos para
garantir recursos. A organização precisa mapear concentração, condições e
alternativas.
Estratégias
incluem diversificar fontes, negociar indicadores de impacto, formar coalizões
com organizações semelhantes e produzir evidências sobre equidade. A
participação de financiadores na revisão pode ser necessária, mas não deve
permitir captura da missão.
A dependência do
fornecedor também precisa ser reduzida por cláusulas de transparência,
portabilidade, auditoria e níveis de serviço. A organização deve desenvolver
competência interna.
7.11 Custos de
transação e decisão tecnológica
A
Rede Integra precisa decidir se mantém fornecedor, troca, desenvolve
internamente ou adota modelo híbrido. A análise inclui:
•
especificidade dos dados e processos;
•
custo de migração;
•
incerteza regulatória;
•
frequência de mudanças;
•
capacidade de monitorar;
•
risco de aprisionamento;
•
conhecimento necessário;
•
impacto sobre pessoas atendidas.
O menor preço de
licença não é o custo total. Dependência, retrabalho e discriminação geram
custos. Desenvolver internamente oferece controle, mas exige capacidade e
manutenção. Um modelo híbrido pode ser satisfatório: infraestrutura contratada
com regras de negócio e governança internas.
7.12 Teoria da agência e
indicadores
O conselho delega à
direção; financiadores delegam à organização; direção delega às unidades;
pessoas atendidas dependem de profissionais. Existem múltiplas relações de
agência e assimetrias de informação.
O painel individual
proposto tenta reduzir assimetria, mas pode estimular manipulação.
Monitoramento excessivo não garante alinhamento. Indicadores equilibrados,
auditoria amostral, transparência e participação podem produzir governança
melhor.
A missão social precisa
ser representada em medidas. Qualidade, equidade e permanência devem acompanhar
volume. Dados precisam ser desagregados para identificar desigualdades.
7.13 Perspectiva crítica e
direitos
Uma leitura crítica
pergunta quem suporta custos do modelo. Pessoas consideradas “difíceis” recebem
menos oportunidades. Profissionais são responsabilizadas(os) por metas sem
controle do mercado. Tecnologia transforma desigualdade histórica em probabilidade.
A organização pode praticar
inclusão seletiva, priorizando quem já está mais próximo do emprego. Isso
melhora indicadores e abandona a missão. A mudança precisa reconhecer
desigualdades estruturais e alocar mais recursos para quem enfrenta barreiras.
A acessibilidade dos
espaços é obrigação, não variável opcional. O orçamento deve incluir plano de
adequação, alternativas temporárias e participação de pessoas com deficiência.
A coleta de dados também
envolve direitos. Deve existir base legal, finalidade, segurança e
possibilidade de correção. Pessoas atendidas precisam compreender como
informações influenciam decisões.
7.14 Proposta integrada
O grupo rejeita as alternativas
extremas de centralização total e autonomia total. Propõe um modelo de governança
distribuída com padrões comuns de direitos e adaptação territorial.
A proposta possui dez eixos.
Eixo 1 — Revisão da missão
operacional
A
missão será traduzida em princípios decisórios: inclusão, trabalho digno,
equidade, autonomia, sustentabilidade e aprendizagem. Esses princípios
orientarão metas e contratos.
Eixo 2 — Novo sistema de indicadores
O indicador único será
substituído por painel equilibrado:
|
Dimensão |
Indicador possível |
Cuidado |
|
Acesso |
Pessoas atendidas e tempo
de espera |
Desagregar por grupos e
território |
|
Qualidade |
Avaliação e resolução de
necessidades |
Evitar satisfação como
única medida |
|
Resultado |
Contratação e permanência |
Considerar qualidade do
vínculo |
|
Equidade |
Diferenças de acesso e
resultado |
Não usar para excluir
grupos |
|
Aprendizagem |
Melhorias implementadas |
Exigir evidência de efeito |
|
Sustentabilidade |
Custo total e capacidade |
Não reduzir a menor preço |
Metas
serão contextualizadas e revisadas. Nenhuma unidade será punida apenas por
comparação bruta.
Eixo
3 — Auditoria algorítmica
O
algoritmo será suspenso como critério de prioridade até auditoria. A avaliação
examinará dados, variáveis, desempenho e impactos. Pessoas atendidas terão
informação e canal de contestação.
Se
mantido, o sistema deverá apoiar alocação de recursos, não negar atendimento.
Casos de maior barreira receberão mais apoio.
Eixo
4 — Redesenho sociotécnico
Profissionais
e usuárias(os) participarão de testes. Campos sem finalidade serão eliminados.
A plataforma permitirá exceções, ciclos e acessibilidade. O tempo de registro
será incorporado à carga.
Eixo
5 — Estrutura de governança
Será
criado conselho de programa com representação territorial e de pessoas
atendidas. Decisões estratégicas terão critérios publicados. Unidades possuirão
alçadas definidas.
Papéis
de integração conectarão programas e territórios. O objetivo é facilitar, não
criar camada burocrática.
Eixo
6 — Gestão de conhecimento
A
organização implantará comunidades de prática, repositório com controle de
versão, mentoria e revisão trimestral de aprendizados. Conhecimentos locais
serão registrados e avaliados.
Eixo 7 — Condições de trabalho e
liderança
A
organização realizará análise de carga, remuneração, segurança, acessibilidade
e desenvolvimento. Lideranças receberão formação em decisão, feedback, direitos
e facilitação.
Monitoramento
de tela não será implantado. Desempenho será acompanhado por resultados,
qualidade e aprendizagem.
Eixo 8 — Relação com financiadores
A
Rede Integra apresentará evidências sobre limitações do indicador atual e
negociará métricas de impacto. Buscará diversificação de recursos e alianças
para evitar dependência.
Eixo 9 — Acessibilidade e equidade
Será
elaborado plano com prazos, orçamento e responsáveis para espaços, comunicação,
plataforma e serviços. Dados serão analisados por grupos, com proteção de
privacidade.
Eixo 10 — Implementação por
experimentos
A
proposta será testada em duas unidades diferentes durante quatro meses. O
piloto terá linha de base, indicadores, entrevistas e revisão. Mudanças serão
ampliadas conforme evidências.
7.15 Plano de implementação
|
Etapa |
Prazo |
Entregas |
|
Diagnóstico aprofundado |
30 dias |
Mapa de processo, dados e riscos |
|
Revisão de indicadores |
45 dias |
Painel e critérios de comparação |
|
Auditoria algorítmica |
90 dias |
Relatório e decisão de uso |
|
Redesenho da plataforma |
120 dias |
Protótipo acessível |
|
Piloto de governança |
120 dias |
Fóruns, alçadas e integradores |
|
Avaliação |
30 dias |
Resultados, efeitos e recomendações |
|
Expansão |
6 a 12 meses |
Implantação progressiva |
7.16 Riscos da proposta
A proposta pode enfrentar resistência
de financiadores, limitações contratuais, sobrecarga participativa e captura
dos fóruns por grupos mais influentes. O piloto pode ser curto para medir
permanência. Dados desagregados podem expor problemas e gerar defesa
institucional.
Para enfrentar riscos, o grupo
recomenda comunicação transparente, proteção de participantes, recursos para
participação, assessoria jurídica e tecnológica, e compromisso público com
revisão.
7.17 Aprendizados do caso
O caso demonstra que teorias produzem
perguntas diferentes. Estruturalismo mostra deslocamento de objetivos;
comportamentalismo, premissas e racionalidade limitada; sistemas, feedback e
fronteiras; contingência, diversidade territorial; institucionalismo, pressões
por legitimidade; dependência de recursos, poder externo; sociotécnica,
interação entre plataforma e trabalho; crítica, desigualdades e direitos.
A solução integrada não é mistura
arbitrária. Cada teoria responde a parte do diagnóstico. O grupo precisa
explicar por que utiliza cada conceito e como as recomendações se conectam.
O principal aprendizado é que
crescimento organizacional exige revisão de coordenação e governança.
Tecnologia e indicadores não são neutros. A missão precisa ser incorporada a
processos, recursos e decisões. Participação só tem valor quando influencia resultados.
E adaptação contextual não pode relativizar direitos.
8. Questões para Estudo
As questões a seguir foram elaboradas para verificar
compreensão conceitual e capacidade de aplicação. Recomenda-se responder antes
de consultar o gabarito. Em questões discursivas, mais de uma formulação pode
ser adequada, desde que os conceitos sejam utilizados com precisão e
relacionados às evidências.
Questão 1 —
Racionalidade limitada e decisão
Uma rede de
clínicas precisa escolher um novo sistema de prontuário eletrônico. A direção
solicita que a equipe encontre “a melhor solução possível” e compare todas as
plataformas disponíveis no mercado, todos os custos futuros e todas as mudanças
regulatórias dos próximos dez anos. Após quatro meses, a equipe ainda não
concluiu o estudo. Algumas pessoas defendem continuar buscando dados; outras
propõem escolher imediatamente a plataforma mais conhecida.
Com base em
Herbert Simon, assinale a alternativa mais adequada.
A) A
equipe deve continuar até obter informação completa, porque decisões
administrativas racionais exigem conhecimento de todas as alternativas.
B) A
plataforma mais conhecida deve ser escolhida, pois a imitação elimina o risco e
garante legitimidade.
C) A
equipe deve reconhecer a racionalidade limitada, definir critérios mínimos,
construir um conjunto viável de alternativas, selecionar uma solução
satisfatória e estabelecer momentos de revisão.
D) A
decisão deve ser transferida integralmente à empresa fornecedora, porque
especialistas externos não enfrentam limites de informação.
E) A
direção deve escolher por intuição e evitar registro, pois decisões não
programadas não podem ser analisadas.
Questão 2 —
Estruturalismo e disfunções burocráticas
Em uma
instituição pública, uma norma criada para impedir pagamentos indevidos passou
a exigir nove autorizações para qualquer despesa, inclusive valores reduzidos e
previamente previstos. Servidoras(es) concentram esforços em obter assinaturas,
mas poucas pessoas verificam a entrega efetiva do serviço. A quantidade de
documentos aumentou e o risco material não diminuiu.
Responda:
1. Qual
conceito de Robert Merton ajuda a explicar a situação?
2. Por
que a solução não deve ser simplesmente eliminar todas as regras?
3. Proponha
duas mudanças que preservem controle e reduzam formalismo.
Questão 3 — Sistemas e
contingência
Uma empresa nacional
possui duas unidades. A Unidade A fabrica componentes padronizados em grande
volume, com demanda relativamente estável. A Unidade B desenvolve soluções sob
medida para clientes, com projetos inéditos e mudanças frequentes. A direção pretende
utilizar a mesma estrutura, os mesmos procedimentos e os mesmos indicadores nas
duas unidades.
Analise
a decisão utilizando:
•
sistemas abertos;
•
Burns e Stalker;
•
Joan Woodward;
•
diferenciação e integração.
Apresente uma
recomendação de desenho organizacional.
Questão 4 —
Teoria institucional e adoção de práticas
Nos últimos anos,
empresas de um setor passaram a criar “laboratórios de inovação”. Uma
organização monta uma sala colorida, compra equipamentos, publica fotografias e
nomeia uma equipe. Entretanto, projetos continuam submetidos aos mesmos
processos lentos, não existe orçamento para experimentos e erros são punidos. A
direção afirma que o laboratório demonstra modernidade.
Qual
interpretação é mais coerente com a teoria institucional?
A) A
organização realizou aprendizagem de ciclo duplo, porque alterou os
pressupostos que orientavam suas decisões.
B) A
prática pode representar isomorfismo mimético e desacoplamento entre estrutura
formal e atividades efetivas.
C) A
organização alcançou equifinalidade, pois qualquer estrutura produz o mesmo
resultado.
D) O
laboratório representa sistema orgânico completo, independentemente de
autoridade e recursos.
E) A
adoção comprova que cultura pode ser modificada apenas por artefatos visuais.
Em seguida,
indique três ações necessárias para aproximar a estrutura formal da prática.
Questão 5 —
Estudo integrado de tecnologia e trabalho
Uma empresa de
entregas introduz aplicativo que define rotas, distribui tarefas e calcula a
pontuação individual. O sistema penaliza atrasos sem considerar trânsito,
falhas do aplicativo ou tempo de espera nos estabelecimentos. Entregadoras(es)
não conhecem os critérios e podem ser suspensas(os) automaticamente. A direção
afirma que o algoritmo é neutro e que o monitoramento garante eficiência.
Produza
uma resposta discursiva de até trinta linhas, utilizando pelo menos quatro das
seguintes perspectivas:
•
abordagem sociotécnica;
•
racionalidade limitada;
•
teoria da agência;
•
dependência de recursos;
•
perspectiva crítica;
•
sistemas abertos;
•
contingência;
•
aprendizagem organizacional.
A resposta deve
incluir diagnóstico, riscos e recomendações.
Gabarito
comentado
Gabarito da Questão 1
A
alternativa correta é a C.
Simon
mostrou que decisões reais são tomadas sob limites de informação, tempo,
atenção e capacidade de cálculo. A exigência de comparar todas as opções
futuras cria um problema impossível e pode paralisar a decisão. A resposta não
é abandonar análise, mas estruturar uma busca suficiente.
A
equipe deve definir critérios como segurança, interoperabilidade,
acessibilidade, custo total, suporte, portabilidade e conformidade. Em seguida,
pode selecionar alternativas viáveis e testar as mais promissoras. A solução
escolhida precisa satisfazer requisitos mínimos e incluir cláusulas e momentos
de revisão.
A
alternativa A pressupõe racionalidade perfeita. A B confunde legitimidade com
adequação e ignora riscos da imitação. A D transfere dependência e não elimina
limites. A E trata intuição como substituta de processo e prejudica
aprendizagem.
Gabarito da Questão 2
O
conceito principal é deslocamento de objetivos. O procedimento criado
para proteger a organização tornou-se finalidade. Obter assinaturas recebe mais
atenção do que verificar a entrega e o risco. Também podem ser observadas
disfunções como excesso de conformidade e incapacidade treinada.
Eliminar
todas as regras seria inadequado porque controles podem proteger recursos
públicos, impessoalidade e responsabilização. A questão é tornar o controle
proporcional ao risco e relacionado à finalidade.
Duas mudanças possíveis são:
•
criar níveis de autorização conforme valor,
risco e tipo de contratação;
•
substituir conferências repetidas por validação
única com rastreabilidade e auditoria amostral.
Outras
respostas aceitáveis incluem revisão periódica da norma, automatização de dados
já disponíveis, clareza de competências, análise da entrega e canal para
exceções. A proposta deve preservar legalidade e transparência.
Gabarito da Questão 3
A
teoria dos sistemas mostra que as unidades recebem demandas e tecnologias
diferentes. A estrutura deve responder às entradas, interdependências e
feedback do ambiente.
Burns
e Stalker sugerem que a Unidade A pode operar com características mais
mecanicistas: papéis definidos, procedimentos e programação. A Unidade B
necessita de elementos orgânicos: equipes multidisciplinares, comunicação
lateral, papéis flexíveis e autoridade baseada em conhecimento.
Woodward
reforça que tecnologias de produção diferentes se relacionam a desenhos
diferentes. Produção em massa favorece padronização; produção unitária ou sob
encomenda exige adaptação.
Diferenciação
é necessária, mas a empresa continua precisando de integração. Finanças, marca,
segurança e estratégia podem ter padrões comuns. Mecanismos como comitês,
sistemas compartilhados e papéis de ligação conectam unidades.
A
recomendação é um desenho híbrido, com procedimentos e indicadores específicos
para cada tecnologia e mecanismos corporativos de integração. Aplicar a mesma
estrutura provavelmente reduziria eficiência na Unidade A ou inovação na
Unidade B.
Gabarito da Questão 4
A
alternativa correta é a B.
A
criação do laboratório pode resultar de isomorfismo mimético: sob incerteza, a
organização imita práticas vistas como modernas. Existe desacoplamento porque a
estrutura formal não está conectada a orçamento, processos e tolerância ao
experimento.
Três ações possíveis são:
1. definir
problemas e resultados esperados, em vez de medir apenas eventos e imagens;
2. criar
orçamento, alçadas e processo simplificado para experimentos de baixo risco;
3. estabelecer
critérios de aprendizagem, documentação e expansão de projetos.
Também
seriam adequadas formação de equipes, conexão com usuárias(os), revisão de
incentivos e governança. A sala pode funcionar como artefato, mas cultura exige
coerência entre valores, decisões e práticas.
Gabarito da Questão 5
Uma
resposta adequada deve integrar perspectivas. Pela abordagem sociotécnica, o
aplicativo foi desenhado sem considerar trânsito, espera, segurança e trabalho
real. O sistema técnico e o social não foram otimizados conjuntamente.
A
racionalidade limitada aparece porque o algoritmo utiliza representação
incompleta. Dados disponíveis não equivalem a todas as causas. Automatizar
suspensão transforma incerteza em decisão aparentemente objetiva.
Pela
teoria da agência, a empresa tenta monitorar agentes, mas incentivos podem
gerar comportamento defensivo, risco e manipulação. Controle unilateral não
garante alinhamento.
A
dependência de recursos mostra assimetria: entregadoras(es) dependem da
plataforma para acesso a trabalho e informação. A organização controla regras e
dados. A perspectiva crítica analisa transferência de riscos e opacidade.
Sistemas
abertos exigem incluir trânsito, estabelecimentos, clima e infraestrutura.
Contingência indica que metas precisam considerar territórios e condições.
Aprendizagem organizacional requer canal de contestação e revisão dos
critérios.
Recomendações
incluem transparência, auditoria, revisão humana, consideração de fatores
externos, participação das pessoas trabalhadoras, proteção contra suspensão
automática, indicadores de segurança e qualidade, e mecanismos de recurso. A
eficiência deve ser avaliada junto com direitos e sustentabilidade.
9. Resumo e Glossário
9.1 Síntese do aprendizado
História do Pensamento
Administrativo II acompanha a transformação da Administração em campo plural.
As teorias iniciais buscavam ordem, produtividade e princípios gerais. As
abordagens posteriores mostram que organizações são sistemas sociais complexos,
compostos por pessoas com racionalidade limitada, estruturas formais e
informais, conflitos, tecnologias, culturas, interesses e dependências
ambientais.
A Teoria Estruturalista amplia o
olhar sobre a burocracia. Robert Merton demonstra que regras podem produzir
disfunções e deslocamento de objetivos. Philip Selznick mostra que organizações
adquirem valores e são transformadas por grupos e pressões. Alvin Gouldner
diferencia formas de aplicação das regras. Amitai Etzioni relaciona poder e
envolvimento. Blau e Scott perguntam quem se beneficia e para quem a
organização deve prestar contas.
A Abordagem Comportamental coloca
decisão, motivação e aprendizagem no centro. Herbert Simon substitui o modelo
de racionalidade perfeita pela racionalidade limitada. Pessoas não conhecem
todas as alternativas e frequentemente escolhem soluções satisfatórias. James
March mostra organizações como coalizões, com objetivos negociados e atenção
limitada. Maslow, Herzberg, McGregor e Likert oferecem maneiras de compreender
necessidades, trabalho, liderança e participação, mas suas propostas precisam
ser aplicadas sem simplificações.
Chris Argyris ajuda a entender
maturidade, aprendizagem e rotinas defensivas. No ciclo simples, corrigem-se
ações sem questionar pressupostos. No ciclo duplo, valores e regras básicas são
examinados. O Desenvolvimento Organizacional transforma esses conhecimentos em
intervenções planejadas, utilizando pesquisa-ação, feedback, formação de
equipes e consultoria de processos.
A Teoria dos Sistemas descreve
organizações como sistemas abertos. Elas recebem entradas, realizam
transformações, produzem saídas e utilizam retroalimentação. Conceitos como
fronteira, entropia, homeostase, diferenciação, integração e equifinalidade ajudam
a mapear relações. A abordagem sociotécnica acrescenta que tecnologia e
trabalho precisam ser desenhados conjuntamente.
A Teoria da Contingência rejeita
solução universal. Joan Woodward relaciona tecnologia e estrutura. Burns e
Stalker diferenciam formas mecanicistas e orgânicas. Lawrence e Lorsch analisam
diferenciação e integração. Chandler relaciona estratégia e estrutura. Perrow e
Thompson examinam tecnologia e interdependência. A recomendação depende do
contexto, mas “depende” não pode ser resposta vazia: é necessário identificar
variáveis e evidências.
As configurações de Mintzberg
mostram que organizações utilizam diferentes mecanismos de coordenação.
Supervisão, ajuste mútuo e padronização podem coexistir. Estruturas simples,
burocracias, divisões e adhocracias são padrões úteis, não caixas rígidas.
Perspectivas contemporâneas ampliam
a análise. A cultura organizacional estuda significados e pressupostos. Poder e
política mostram que decisões envolvem interesses e controle de recursos. A
teoria institucional explica legitimidade, isomorfismo e desacoplamento.
Dependência de recursos analisa relações de poder externo. Custos de transação
orientam escolhas de governança. Teoria da agência discute delegação e
informação. Ecologia organizacional destaca seleção e inércia.
A visão baseada em recursos observa
capacidades internas. Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento
explicam renovação de rotinas e competências. Estratégia pode ser deliberada ou
emergente. Organizações precisam equilibrar exploração de possibilidades e
aproveitamento de capacidades existentes.
Perspectivas críticas, feministas,
raciais e decoloniais questionam a neutralidade da gestão. Estruturas e
práticas podem reproduzir desigualdades. Direitos, acessibilidade, diversidade
e participação não são temas periféricos. Precisam integrar o desenho
organizacional.
Sustentabilidade amplia a fronteira
do sistema para impactos ambientais e sociais. Organizações digitais e
plataformas renovam debates sobre controle, burocracia e poder. Algoritmos não
são neutros: incorporam dados, critérios e decisões.
A principal competência construída
pela disciplina é a capacidade de combinar teorias com critério. Um diagnóstico
deve delimitar problema, reunir evidências, selecionar lentes, reconhecer
limites e propor intervenções avaliáveis. Administração de qualidade não
depende de moda, mas de contexto, responsabilidade e aprendizagem.
9.2 Quadro de revisão rápida
|
Tema |
Ideia principal |
Pergunta para aplicação |
|
Estruturalismo |
Organização reúne
estrutura, conflito e grupos |
O objetivo foi deslocado
para a regra? |
|
Racionalidade limitada |
Decisões ocorrem sob
limites |
Quais critérios e
informações são suficientes? |
|
Motivação |
Condições e conteúdo do
trabalho importam |
O sistema oferece justiça,
autonomia e recursos? |
|
Desenvolvimento
Organizacional |
Mudança pode ser
investigada e aprendida |
Quem participa e como o
feedback será usado? |
|
Sistemas abertos |
Organização depende do
ambiente |
Quais fluxos e
externalidades foram ignorados? |
|
Sociotécnica |
Tecnologia e trabalho são
interdependentes |
Quem participou do desenho
da solução? |
|
Contingência |
A estrutura precisa
ajustar-se ao contexto |
De quais condições a
decisão depende? |
|
Cultura |
Significados orientam
práticas |
Há coerência entre discurso
e decisões? |
|
Poder |
Recursos e agendas são
disputados |
Quem pode influenciar e
contestar? |
|
Institucionalismo |
Legitimidade influencia
adoção |
A prática é efetiva ou
apenas formal? |
|
Aprendizagem |
Rotinas e pressupostos
podem mudar |
O problema está sendo
corrigido ou repensado? |
|
Perspectivas críticas |
Gestão distribui riscos e
oportunidades |
Quem ganha, quem perde e
quem fica invisível? |
9.3 Glossário
Adhocracia
Configuração
flexível, orientada a projetos e inovação, na qual especialistas coordenam-se
principalmente por ajuste mútuo. É útil em problemas novos, mas pode gerar
ambiguidade e dificuldade de continuidade.
Aprendizagem de ciclo duplo
Processo
em que a organização não apenas corrige ações, mas questiona valores, metas e
regras que orientam essas ações. Difere do ciclo simples, no qual a correção
ocorre sem revisão das premissas.
Burocracia profissional
Configuração
que coordena trabalho pela padronização de habilidades e formação.
Universidades e hospitais são exemplos aproximados. Profissionais possuem
autonomia, mas podem surgir dificuldades de integração.
Contingência
Condição
que faz a adequação de uma prática depender do contexto. Tecnologia, ambiente,
tamanho, estratégia e interdependência podem funcionar como variáveis
contingenciais.
Desacoplamento
Separação
entre estrutura formal e prática efetiva. Uma política pode existir para
demonstrar conformidade, enquanto atividades cotidianas seguem outra lógica.
Deslocamento de objetivos
Disfunção
em que procedimentos, regras ou indicadores criados para servir a uma
finalidade tornam-se fins em si mesmos. O cumprimento formal substitui o
resultado pretendido.
Diferenciação
Processo
pelo qual unidades desenvolvem tarefas, conhecimentos e orientações distintas.
Exige mecanismos de integração para evitar fragmentação.
Entropia
Tendência à
perda de organização e capacidade. Sistemas abertos combatem entropia por
renovação de recursos, informação e aprendizagem.
Equifinalidade
Princípio
segundo o qual sistemas abertos podem alcançar resultados semelhantes por
caminhos diferentes. Apoia a crítica à ideia de uma única forma ideal.
Estrutura mecanicista
Forma
caracterizada por especialização rígida, autoridade vertical, regras detalhadas
e comunicação formal. Pode ser adequada a ambientes estáveis e tarefas
previsíveis.
Estrutura orgânica
Forma
com papéis flexíveis, comunicação lateral e autoridade associada ao
conhecimento. Tende a ser útil em inovação e incerteza.
Homeostase
Capacidade
do sistema de manter estabilidade por ajustes. Em organizações, representa
equilíbrio dinâmico, não imobilidade.
Institucionalização
Processo
pelo qual uma organização ou prática adquire valor, identidade e legitimidade
além de sua função técnica. Pode criar estabilidade e resistência à mudança.
Interdependência recíproca
Relação
em que unidades trocam recursos ou informação continuamente. Exige ajuste mútuo
e coordenação intensa.
Isomorfismo
Processo
que torna organizações semelhantes por pressões coercitivas, imitação em
situação de incerteza ou influência normativa de profissões e formação.
Otimização conjunta
Princípio
sociotécnico segundo o qual sistemas técnico e social devem ser desenhados em
conjunto. Melhorar apenas tecnologia pode prejudicar o trabalho e o resultado
global.
Racionalidade limitada
Condição
em que pessoas tomam decisões com informação, tempo e capacidade cognitiva
restritos. Buscam alternativas satisfatórias, não necessariamente ótimas.
Retroalimentação
Informação
sobre resultados que retorna ao sistema e influencia ações futuras. Pode
estabilizar ou reforçar mudanças.
Rotina defensiva
Comportamento
que evita constrangimento ou ameaça, mas impede discutir erros e aprender. Pode
ocorrer quando problemas são conhecidos, porém permanecem não declarados.
Sistema aberto
Sistema
que troca recursos, informação e energia com o ambiente. Organizações são
abertas porque dependem de atores e condições externas.
10. Referências e
Aprofundamento
A bibliografia de História do Pensamento
Administrativo II é ampla e interdisciplinar. O estudo pode combinar manuais em
língua portuguesa, obras clássicas e artigos. É importante verificar a edição
disponível e observar que traduções podem utilizar termos diferentes.
10.1 Bibliografia
básica em língua portuguesa
CHIAVENATO,
Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração.
Obra de ampla
utilização em cursos de Administração. Apresenta escolas de forma sistemática e
acessível. É útil como mapa inicial, mas deve ser complementada por textos
originais e estudos críticos, especialmente quando simplifica correntes ou
autores.
MOTTA,
Fernando C. Prestes; VASCONCELOS, Isabella F. Gouveia de. Teoria Geral da
Administração.
Oferece leitura
histórica e sociológica, com atenção a contexto, poder, cultura e evolução das
teorias. Ajuda a conectar escolas clássicas e contemporâneas.
MAXIMIANO,
Antonio Cesar Amaru. Teoria Geral da Administração.
Apresenta
conceitos de forma organizada, com exemplos e relações com prática. Pode ser
utilizado para revisão e comparação entre abordagens.
MORGAN,
Gareth. Imagens da Organização.
A obra utiliza
metáforas para analisar organizações como máquinas, organismos, cérebros,
culturas, sistemas políticos, prisões psíquicas, fluxos e instrumentos de
dominação. É especialmente adequada para compreender que uma mesma organização
pode ser interpretada por lentes diferentes.
CLEGG,
Stewart; KORNBERGER, Martin; PITSIS, Tyrone. Administração e Organizações.
Apresenta
perspectivas contemporâneas, incluindo poder, cultura, identidade e
globalização. Contribui para uma leitura crítica e plural.
HALL, Richard
H. Organizações: estruturas, processos e resultados.
Obra voltada à
Sociologia das Organizações, útil para estrutura, poder, ambiente e
efetividade. Ajuda a aprofundar o estruturalismo e abordagens organizacionais.
10.2 Obras
clássicas sobre decisão e comportamento
SIMON, Herbert
A. Administrative Behavior.
Texto fundamental
para racionalidade limitada, premissas e processo decisório. A leitura de
capítulos selecionados permite compreender por que Simon critica princípios
administrativos apresentados como provérbios contraditórios.
MARCH, James
G.; SIMON, Herbert A. Organizations.
Discute
comportamento, limites cognitivos, conflitos e influência organizacional. É
obra central para a abordagem comportamental.
CYERT, Richard
M.; MARCH, James G. A Behavioral Theory of the Firm.
Apresenta
organizações como coalizões, com objetivos negociados, busca local e níveis de
aspiração. É relevante para estratégia e decisão.
MARCH, James
G. A Primer on Decision Making.
Explora
diferentes lógicas de decisão e ambiguidades. Ajuda a superar a visão de
decisão como cálculo linear.
MCGREGOR,
Douglas. The Human Side of Enterprise.
Obra associada às
Teorias X e Y. Deve ser lida como discussão de pressupostos gerenciais, não
como classificação fixa de pessoas.
ARGYRIS,
Chris. Personality and Organization.
Analisa tensões
entre desenvolvimento das pessoas e estruturas formais. É base para discussões
sobre maturidade e desenho do trabalho.
ARGYRIS,
Chris; SCHÖN, Donald. Organizational Learning.
Obra fundamental
para aprendizagem de ciclo simples e duplo, teorias declaradas e teorias em
uso.
10.3
Estruturalismo, burocracia e instituições
MERTON, Robert
K. Social Theory and Social Structure.
Inclui análises
de estrutura burocrática, funções manifestas e latentes e consequências não
intencionais. É importante para compreender disfunções sem rejeitar toda
formalização.
SELZNICK,
Philip. TVA and the Grass Roots.
Estudo clássico
sobre cooptação, adaptação e institucionalização. Demonstra como organizações
são transformadas por seu ambiente e por grupos internos.
SELZNICK,
Philip. Leadership in Administration.
Discute liderança
institucional e proteção de valores. É útil para diferenciar gestão técnica e
construção de propósito.
GOULDNER,
Alvin W. Patterns of Industrial Bureaucracy.
Analisa padrões
de burocracia e aplicação de regras. Ajuda a compreender que formalização
produz efeitos diferentes conforme legitimidade e relações.
ETZIONI,
Amitai. A Comparative Analysis of Complex Organizations.
Apresenta
tipologia de poder, envolvimento e organizações. A leitura deve considerar
limites das classificações e diversidade contemporânea.
MEYER, John
W.; ROWAN, Brian. Institutionalized Organizations: Formal Structure as Myth and
Ceremony.
Artigo clássico
da nova teoria institucional. Explica como estruturas formais podem ser
adotadas por legitimidade e desacopladas da atividade.
DIMAGGIO, Paul
J.; POWELL, Walter W. The Iron Cage Revisited.
Artigo que
apresenta isomorfismo coercitivo, mimético e normativo. É útil para analisar
difusão de práticas e modismos.
10.4 Sistemas,
sociotécnica e contingência
BERTALANFFY,
Ludwig von. General System Theory.
Obra de referência da
Teoria Geral dos Sistemas. Seu nível de abstração exige leitura orientada, mas
ajuda a compreender origem de conceitos sistêmicos.
KATZ, Daniel;
KAHN, Robert L. The Social Psychology of Organizations.
Aplica sistemas
abertos às organizações. Discute entradas, ciclos, entropia, diferenciação e
integração.
TRIST, Eric;
BAMFORTH, Ken. Some Social and Psychological Consequences of the Longwall
Method of Coal-Getting.
Estudo clássico
associado à abordagem sociotécnica. Mostra que mudanças tecnológicas alteram
organização social do trabalho.
WOODWARD, Joan.
Industrial Organization: Theory and Practice.
Pesquisa que
relaciona tecnologia de produção e estrutura. É fundamental para a formação da
contingência.
BURNS, Tom;
STALKER, G. M. The Management of Innovation.
Apresenta sistemas
mecanicistas e orgânicos em relação ao ambiente e à inovação.
LAWRENCE, Paul R.;
LORSCH, Jay W. Organization and Environment.
Examina
diferenciação, integração e ambiente. É obra central para desenho
contingencial.
THOMPSON, James D.
Organizations in Action.
Discute incerteza,
tecnologia, interdependência e estratégias para administrar dependência. É uma
das obras mais influentes da teoria organizacional.
PERROW, Charles.
Organizational Analysis: A Sociological View.
Analisa tecnologia
por variabilidade e analisabilidade. Ajuda a relacionar tipo de tarefa e
estrutura.
10.5 Estrutura,
estratégia e configurações
CHANDLER, Alfred
D. Strategy and Structure.
Estudo histórico
sobre crescimento de grandes empresas e desenvolvimento da estrutura
multidivisional. A formulação de que a estrutura acompanha a estratégia deve
ser interpretada como relação histórica, não lei automática.
MINTZBERG, Henry.
The Structuring of Organizations.
Apresenta partes,
mecanismos de coordenação e configurações. É útil para diagnóstico de desenho
organizacional.
MINTZBERG, Henry;
AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Strategy Safari.
Compara escolas de
estratégia e mostra diferentes maneiras de compreender formação estratégica.
PENROSE, Edith.
The Theory of the Growth of the Firm.
Analisa crescimento a
partir dos recursos e serviços produtivos. É precursora da visão baseada em
recursos.
BARNEY, Jay. Firm
Resources and Sustained Competitive Advantage.
Artigo de referência
sobre recursos estratégicos. Deve ser complementado por análises de contexto,
relações e sustentabilidade.
10.6 Poder, dependência e
governança
PFEFFER, Jeffrey;
SALANCIK, Gerald R. The External Control of Organizations.
Obra central da dependência
de recursos. Mostra como dependências externas produzem poder e estratégias de
resposta.
COASE, Ronald H. The
Nature of the Firm.
Artigo clássico que
pergunta por que organizações existem e introduz a ideia de custos de utilizar
o mercado.
WILLIAMSON, Oliver E.
Markets and Hierarchies.
Desenvolve custos de
transação e escolhas de governança. É útil para terceirização e contratos, mas
precisa ser complementado por perspectivas sociais e jurídicas.
JENSEN, Michael C.;
MECKLING, William H. Theory of the Firm: Managerial Behavior, Agency Costs and
Ownership Structure.
Texto central da teoria da
agência. Serve para governança, incentivos e informação, devendo ser lido
criticamente quanto aos pressupostos sobre comportamento.
CROZIER, Michel. The
Bureaucratic Phenomenon.
Analisa poder, regras e
zonas de incerteza em organizações burocráticas. Ajuda a compreender influência
informal de especialistas.
10.7 Cultura,
aprendizagem e conhecimento
SCHEIN, Edgar H.
Organizational Culture and Leadership.
Referência para níveis
da cultura, socialização e liderança. A obra mostra que cultura é aprendida em
processos de adaptação e integração, não criada por slogans.
SCHEIN, Edgar H.
Process Consultation.
Apresenta princípios
de ajuda e consultoria de processos. É relevante para diagnóstico e mudança
participativa.
SENGE, Peter M. The
Fifth Discipline.
Popularizou
organizações que aprendem e pensamento sistêmico. Deve ser lido junto com
estudos empíricos e críticas a visões idealizadas.
NONAKA, Ikujiro;
TAKEUCHI, Hirotaka. The Knowledge-Creating Company.
Discute criação de
conhecimento e interação entre tácito e explícito. É útil para inovação, mas
requer atenção a diferenças culturais e organizacionais.
MARCH, James G.
Exploration and Exploitation in Organizational Learning.
Artigo fundamental
sobre equilíbrio entre busca de novidades e aproveitamento de capacidades
existentes.
10.8 Perspectivas
críticas, gênero e desigualdades
BRAVERMAN,
Harry. Labor and Monopoly Capital.
Analisa controle
e degradação do trabalho no capitalismo. É referência para estudos do processo
de trabalho.
ACKER, Joan.
Hierarchies, Jobs, Bodies: A Theory of Gendered Organizations.
Artigo central
para compreender como estruturas e cargos incorporam pressupostos de gênero.
CALÁS, Marta
B.; SMIRCICH, Linda. From the Woman’s Point of View: Feminist Approaches to
Organization Studies.
Apresenta
diferentes abordagens feministas e amplia a crítica à neutralidade
organizacional.
ALCADIPANI,
Rafael; ROSA, Alexandre Reis. From Grobal Management to Glocal Management.
Textos de
perspectivas críticas e pós-coloniais ajudam a questionar importação de modelos
e hierarquias do conhecimento. Recomenda-se buscar produções brasileiras sobre
colonialidade, raça e organizações para contextualizar a formação social do
país.
RAMOS, Alberto
Guerreiro. A Nova Ciência das Organizações.
Obra brasileira
que critica a redução da vida humana à lógica de mercado e propõe uma teoria
substantiva das organizações. É importante para pensar racionalidade, sociedade
e alternativas organizacionais.
PRESTES MOTTA,
Fernando C. Organização e Poder.
Contribui para
analisar burocracia, ideologia e poder a partir de uma perspectiva brasileira.
10.9 Leituras
sobre Administração brasileira
O aprofundamento
da disciplina precisa incluir autores e pesquisas que discutam a realidade
brasileira. A formação administrativa do país é marcada por escravidão,
desigualdades, patrimonialismo, construção burocrática, industrialização
tardia, desenvolvimento estatal e circulação de modelos estrangeiros.
Além das obras de
Guerreiro Ramos e Fernando Prestes Motta, recomenda-se consultar estudos
brasileiros sobre Administração Pública, relações raciais, gênero, trabalho,
movimentos sociais, economia solidária e gestão social. A seleção deve
valorizar produções de pesquisadoras(es) negras(os), indígenas, de diferentes
regiões e instituições.
10.10 Roteiro de
aprofundamento por interesse
Para quem deseja estudar decisão
Começar por Simon,
avançar para March e Cyert e depois relacionar a vieses, dados e inteligência
artificial. Uma pesquisa aplicada pode comparar decisão formal e prática em
determinada organização.
Para quem deseja estudar estrutura
Ler Woodward, Burns e
Stalker, Lawrence e Lorsch, Thompson e Mintzberg. Em seguida, analisar uma
organização por tecnologia, interdependência e mecanismos de coordenação.
Para quem deseja estudar cultura
e mudança
Combinar Schein,
Argyris, Schön e estudos críticos. Observar como valores declarados, incentivos
e poder interagem.
Para quem deseja estudar ambiente
e estratégia
Relacionar teoria
institucional, dependência de recursos, custos de transação e visão baseada em
recursos. Comparar explicações para uma parceria, fusão ou adoção de prática.
Para quem deseja estudar trabalho
e desigualdade
Ler estudos
críticos, feministas, raciais e decoloniais. Analisar cargos, critérios,
tecnologia, divisão do cuidado e canais de voz.
10.11 Tópicos para estudos
futuros
A
disciplina pode ser aprofundada por pesquisas sobre:
•
inteligência artificial e decisão
organizacional;
•
gestão algorítmica e direitos do trabalho;
•
estruturas híbridas e trabalho remoto;
•
organizações em rede e plataformas;
•
burocracia digital;
•
inovação no setor público;
•
acessibilidade organizacional;
•
aprendizagem após crises;
•
sustentabilidade e transição climática;
•
governança de dados;
•
diversidade, equidade e inclusão;
•
organizações comunitárias e economia solidária;
•
modelos de gestão desenvolvidos no Sul Global;
•
descolonização do ensino de Administração;
•
linguagem simples e participação;
•
saúde mental e desenho do trabalho.
10.12 Sugestão de projeto final
Como
atividade de encerramento, a pessoa estudante pode realizar um diagnóstico
comparativo de uma organização. O projeto pode seguir seis etapas:
1.
escolher um problema delimitado;
2.
reunir documentos, observações ou entrevistas;
3.
selecionar pelo menos três teorias;
4.
construir interpretações alternativas;
5.
propor intervenção com riscos e indicadores;
6.
refletir sobre limites e impactos éticos.
O relatório deve explicar por
que cada teoria foi escolhida. A qualidade não depende da quantidade de
conceitos, mas da coerência entre pergunta, evidência e proposta.
10.13 Plano de
estudo orientado em dezesseis encontros
O percurso abaixo
organiza a disciplina em encontros progressivos. Cada encontro combina leitura,
comparação e aplicação. O plano pode ser adaptado à carga horária e ao perfil
da turma.
Encontro 1 — Revisão e mudança de
problema histórico
O primeiro
encontro recupera Administração Científica, Teoria Clássica, burocracia e
Relações Humanas. A turma identifica contribuições e perguntas deixadas em
aberto. Em seguida, constrói uma lista de transformações do século XX: expansão
de empresas, crescimento do Estado, profissionalização, novas tecnologias e
internacionalização.
A atividade
central é comparar duas descrições de uma organização: uma centrada em tarefas
e outra em ambiente, conflitos e decisão. A turma discute o que cada descrição
torna visível.
Encontro 2 — Estruturalismo e
organização complexa
A leitura deve
introduzir estrutura formal e informal, objetivos múltiplos e conflito. Um
quadro relaciona Merton, Selznick, Gouldner, Etzioni, Blau e Scott.
A atividade pode
analisar uma regra real ou fictícia. As pessoas estudantes identificam
finalidade, forma de aplicação, efeitos não intencionais e grupos beneficiados.
O resultado é apresentado em linguagem simples.
Encontro 3 — Disfunções
burocráticas e institucionalização
O encontro
aprofunda deslocamento de objetivos, incapacidade treinada, cooptação e
identidade institucional. A turma deve evitar a oposição “burocracia ruim
versus flexibilidade boa”.
Como exercício,
cada grupo redesenha um controle excessivo. A proposta deve preservar
legalidade, rastreabilidade e possibilidade de revisão.
Encontro 4 — Simon e a teoria da
decisão
A leitura orientada
destaca racionalidade limitada, satisfação, premissas e decisões programadas. A
turma aplica um roteiro decisório a uma escolha de tecnologia, contratação ou
reorganização.
Cada grupo
explicita critérios e informação suficiente. Depois, identifica o que permanece
incerto. O objetivo é reconhecer limites sem abandonar método.
Encontro 5 — Coalizões, objetivos
e atenção
O encontro
apresenta March e a teoria comportamental da firma. Organizações são tratadas
como coalizões e metas como resultados de negociação.
A atividade
simula uma decisão orçamentária entre áreas. Cada grupo possui objetivos e
informações diferentes. Após a negociação, a turma analisa como poder,
sequência e atenção influenciaram o resultado.
Encontro 6 — Motivação, liderança
e trabalho
Maslow, Herzberg,
McGregor, Likert e Argyris são comparados. A turma deve separar contribuição
histórica, evidência e uso popular.
A atividade
consiste em avaliar uma política de desempenho. O grupo identifica condições
higiênicas, autonomia, pressupostos de liderança e efeitos sobre maturidade. A
resposta precisa propor mudanças concretas.
Encontro 7 — Desenvolvimento
Organizacional
Pesquisa-ação,
mudança planejada, feedback e consultoria de processos formam o núcleo. A turma
constrói um ciclo de diagnóstico para um problema de comunicação ou integração.
O exercício
inclui contrato, coleta de dados, devolução, intervenção e avaliação. Devem ser
discutidos confidencialidade, participação e assimetria de poder.
Encontro 8 — Sistemas abertos
O encontro trabalha entradas,
transformação, saídas, feedback, fronteiras, entropia e equifinalidade. A turma
cria mapa sistêmico de um serviço conhecido.
O mapa precisa incluir
atrasos, externalidades e atores externos. Ao final, os grupos apontam uma
intervenção que poderia deslocar o problema para outra parte do sistema.
Encontro 9 — Sistemas sociotécnicos
A leitura relaciona
tecnologia, autonomia, qualificação e organização do trabalho. A atividade
analisa implantação de aplicativo, plataforma ou automação.
O grupo identifica quem
participou do desenho, quais dados são coletados, como tarefas mudam e quais
barreiras de acessibilidade surgem. A proposta deve otimizar sistemas técnico e
social conjuntamente.
Encontro 10 — Contingência e ambiente
Woodward, Burns e
Stalker, Lawrence e Lorsch, Perrow e Thompson são organizados em uma matriz. A
turma compara duas unidades com tarefas e ambientes distintos.
A avaliação exige
justificar diferenças de formalização, autonomia e coordenação. Não será aceita
a resposta genérica de que “depende” sem especificar variáveis.
Encontro 11 — Configurações e
coordenação
O encontro utiliza
Mintzberg para discutir supervisão, ajuste mútuo e padronizações. A turma
analisa universidade, fábrica, startup e hospital.
Cada grupo
identifica configuração aproximada e combinações híbridas. Em seguida, propõe
mecanismos para integrar unidades sem apagar suas especialidades.
Encontro 12 — Cultura, poder e
política
A leitura apresenta
níveis de cultura, subculturas, fontes de poder e zonas de incerteza. A
atividade compara valores declarados com decisões observáveis.
A turma deve
distinguir conflito legítimo, abuso de poder e divergência técnica. Também
discute canais de voz, transparência e proteção contra retaliação.
Encontro 13 — Teoria
institucional e dependência de recursos
O encontro
analisa legitimidade, isomorfismo, desacoplamento e poder externo. Os grupos
escolhem uma prática difundida — certificação, laboratório de inovação, plano
estratégico ou relatório — e investigam por que foi adotada.
A resposta deve
considerar pressão legal, imitação, profissão, recursos e reputação. Depois,
propõe como aproximar estrutura formal e prática.
Encontro 14 — Governança,
contratos e agência
Custos de
transação, teoria da agência e governança são comparados. A turma recebe um
caso de terceirização.
Os grupos avaliam
especificidade de ativos, incerteza, monitoramento, dependência, direitos e
conhecimento. A decisão não pode ser baseada apenas no preço.
Encontro 15 — Aprendizagem,
conhecimento e estratégia
Argyris e Schön,
Senge, Nonaka e March orientam o encontro. A turma analisa como uma organização
aprende após erro ou projeto.
A atividade
separa correção de processo e revisão de pressupostos. Também propõe mecanismos
para preservar conhecimento tácito e equilibrar exploração e aproveitamento.
Encontro 16 — Perspectivas
críticas e síntese
O último encontro
integra gênero, raça, classe, deficiência, sustentabilidade e transformação
digital. A turma revisita um caso estudado e pergunta quais pessoas,
conhecimentos e impactos ficaram invisíveis.
A avaliação final
pode ser uma apresentação de diagnóstico com três teorias, proposta, riscos,
indicadores e reflexão ética. O encerramento deve mostrar que teorias são
lentes e que toda escolha possui consequências.
10.14 Critérios
para selecionar fontes e avaliar conteúdos
Materiais sobre
Administração circulam em livros, artigos, vídeos, redes e cursos. Nem toda
fonte possui a mesma finalidade. Um conteúdo de divulgação pode introduzir
conceito, mas não substituir obra acadêmica quando o objetivo é pesquisa.
A
pessoa estudante pode utilizar os seguintes critérios:
•
autoria e vínculo institucional identificáveis;
•
referência às obras utilizadas;
•
distinção entre conceito original e
interpretação;
•
atualização quando o tema envolve tecnologia ou
legislação;
•
apresentação de evidências e limites;
•
linguagem que não transforme teoria em promessa
universal;
•
diversidade de perspectivas e contextos;
•
respeito a direitos autorais e integridade
acadêmica.
Ao utilizar
inteligência artificial, o conteúdo precisa ser verificado. A ferramenta pode
apoiar síntese, perguntas e organização, mas pode inventar referências,
simplificar teorias ou reproduzir vieses. Obras citadas devem ser confirmadas
em catálogos, bibliotecas ou bases acadêmicas.
Também é
importante distinguir fonte primária e secundária. Um texto de Simon é fonte
primária para racionalidade limitada; um manual que explica Simon é fonte
secundária. As duas são úteis, mas cumprem papéis diferentes.
10.15 Orientações para
produção acadêmica
Um trabalho sobre
pensamento administrativo precisa evitar sequência de resumos desconectados. A
introdução deve apresentar pergunta e justificativa. O referencial deve definir
conceitos relevantes. A análise deve relacionar evidências e teoria. A conclusão
precisa responder à pergunta e reconhecer limites.
Citações devem ser
utilizadas para sustentar ideias e permitir verificação. Parafrasear não
elimina a necessidade de referência. Citação direta deve ser breve e
contextualizada. A bibliografia deve conter apenas obras efetivamente
utilizadas.
Ao comparar teorias,
recomenda-se manter critérios comuns, como contexto, unidade de análise, visão
de pessoa, mecanismo e limites. A comparação ganha qualidade quando mostra
diferenças reais, e não apenas troca nomes.
Estudos de caso
precisam proteger confidencialidade quando utilizam organizações e pessoas
identificáveis. Dados sensíveis devem ser tratados com cuidado. A autorização
institucional não substitui consentimento e ética de pesquisa quando
aplicáveis.
10.16 Banco de
atividades complementares
As atividades abaixo
podem ser utilizadas para aprofundamento individual, trabalho em grupo ou
publicação complementar no Portal Admguia. Elas não substituem as cinco
questões avaliativas da seção anterior; funcionam como exercícios de aplicação
e pesquisa.
Atividade 1 — Biografia
intelectual comparada
Escolha duas autoras ou dois autores
de correntes diferentes. Produza um quadro com formação, contexto, problema
investigado, método, conceitos e influência. Depois, escreva uma análise
explicando como suas trajetórias ajudam a compreender as perguntas formuladas.
Uma comparação entre Simon e Schein,
por exemplo, pode mostrar a passagem de decisão e racionalidade para cultura e
processos de ajuda. A atividade deve evitar biografia celebratória. O foco é
relacionar vida intelectual, instituições e debates.
Atividade 2 — Auditoria de um
indicador
Selecione um indicador utilizado em
organização, escola, serviço público ou projeto. Identifique finalidade,
fórmula, fonte dos dados, frequência e decisão associada. Em seguida, examine
possíveis deslocamentos de objetivo, incentivos e grupos invisibilizados.
A entrega pode
conter:
•
definição do indicador;
•
objetivo pretendido;
•
comportamento que pode estimular;
•
limites e vieses;
•
proposta de indicador complementar;
•
forma de revisão e participação.
O exercício mostra que medir é escolher
uma representação. Nenhum indicador resume toda realidade.
Atividade 3 — Mapa de dependências
Escolha uma organização e identifique
recursos críticos: financiamento, conhecimento, tecnologia, licenças,
fornecedores, trabalho e legitimidade. Para cada recurso, indique quem o
controla, o grau de concentração e as alternativas existentes.
Depois, proponha estratégias para reduzir
vulnerabilidade sem criar nova dependência. Diversificar fornecedores pode
aumentar coordenação; internalizar tecnologia exige investimento; criar
parceria pode compartilhar risco e também limitar autonomia. A proposta deve
considerar custos e poder.
Atividade 4 — Diagnóstico
sociotécnico
Observe uma ferramenta digital utilizada
em estudo ou trabalho. Descreva tarefa antes e depois da tecnologia, pessoas
envolvidas, dados coletados, decisões automatizadas e barreiras.
Entrevistas curtas podem revelar
diferenças entre procedimento formal e uso real. O relatório deve propor
redesenho conjunto: campos, interface, treinamento, suporte, metas,
acessibilidade e governança.
A atividade não deve concluir que toda
tecnologia causa controle. O objetivo é analisar como desenho e contexto
produzem efeitos.
Atividade 5 — Análise de
estrutura e contingência
Compare duas unidades de uma mesma
organização ou duas organizações do mesmo setor. Levante ambiente, tecnologia,
tamanho, estratégia, risco, interdependência e conhecimento. Depois, analise
centralização, formalização e coordenação.
A conclusão deve responder se as
estruturas parecem adequadas. Diferenças não são automaticamente problema. A
padronização pode ser necessária em direitos e segurança, enquanto métodos
variam.
Atividade 6 — Cultura declarada e
prática
Escolha um valor organizacional
divulgado publicamente, como inovação, diversidade, sustentabilidade ou foco no
cliente. Reúna evidências em documentos, decisões, indicadores e relatos.
Organize os resultados em três
colunas: discurso, prática coerente e contradição. Proponha mudanças em
sistemas e decisões, não apenas comunicação. A atividade deve evitar exposição
indevida de pessoas.
Atividade 7 — Comparação
institucional
Investigue uma prática adotada por várias
organizações: programas de integridade, laboratórios, relatórios, metodologias
ágeis ou estruturas ESG. Identifique pressões coercitivas, normativas e
miméticas.
Pergunte se a prática está acoplada ao
cotidiano. Existem recursos, responsáveis e resultados? Há apenas documento ou
evento? A análise deve reconhecer que busca de legitimidade pode ser
necessária, mas precisa produzir capacidade real.
Atividade 8 — Aprendizagem após falha
Selecione um caso público de falha
organizacional ou crie situação fictícia. Reconstrua eventos, decisões, alertas
e respostas. Classifique mudanças posteriores como ciclo simples ou duplo.
Uma organização pratica ciclo simples
quando acrescenta verificação sem revisar meta contraditória. Aproxima-se do
ciclo duplo quando questiona incentivos, autoridade e pressupostos. O relatório
deve propor memória, comunicação e responsabilização.
Atividade 9 — Leitura crítica de
um modismo de gestão
Escolha um termo difundido em redes
ou consultorias. Pesquise origem, definição, evidências e críticas. Compare a
promessa com teorias históricas.
Perguntas
orientadoras:
•
Que problema afirma resolver?
•
O conceito é novo ou renomeia ideias anteriores?
•
Que condições são necessárias?
•
Como resultados foram avaliados?
•
Quem vende ou legitima a prática?
•
Quais impactos podem ser ignorados?
A conclusão pode reconhecer utilidade
parcial sem aceitar promessa universal.
Atividade 10 — Projeto de
organização inclusiva
Desenhe um processo organizacional
inclusivo, como seleção, atendimento, reunião ou formação. Utilize sistemas,
contingência, sociotécnica, cultura e perspectiva crítica.
O projeto deve conter objetivos,
partes interessadas, barreiras, padrões comuns, adaptações, tecnologia,
indicadores e canal de contestação. A acessibilidade precisa estar presente
desde o início.
Atividade 11 — Podcast ou vídeo
didático
Produza roteiro de cinco a dez minutos
explicando uma teoria para estudantes. O roteiro deve apresentar contexto,
conceito, exemplo, limite e aplicação. Jargões precisam ser definidos.
Uma boa divulgação não transforma autor
em frase de efeito. Deve mostrar problema e cuidado de uso. Imagens e recursos
precisam respeitar acessibilidade e direitos autorais.
Atividade 12 — Portfólio reflexivo
Ao longo do semestre,
registre para cada teoria:
•
conceito que mudou sua maneira de observar
organizações;
•
exemplo encontrado;
•
dúvida;
•
limite percebido;
•
conexão com experiência;
•
decisão que poderia ser diferente.
No final, escreva síntese comparando as
lentes mais úteis. O portfólio avalia desenvolvimento do pensamento, não apenas
memorização.
Atividade 13 — Debate entre teorias
Organize a turma em grupos que representem
diferentes perspectivas. Todos recebem o mesmo caso, mas cada grupo prepara
diagnóstico com uma lente: comportamental, sistêmica, contingencial,
institucional, crítica ou de recursos.
No debate, cada grupo deve explicar o que
sua teoria ilumina e reconhecer pelo menos um limite. Depois, a turma constrói
síntese sem apagar divergências. A avaliação considera precisão, uso de
evidências e capacidade de responder a críticas.
Atividade 14 — Redesenho de uma
reunião
Escolha um tipo de reunião recorrente e
analise finalidade, participantes, informação, autoridade e decisões. Muitas
reuniões existem por hábito institucional e funcionam como ritual, sem conexão
com ação.
A proposta de
redesenho deve definir:
•
objetivo e resultado esperado;
•
pessoas necessárias e formas de participação;
•
material prévio acessível;
•
papéis de facilitação e registro;
•
critérios de decisão;
•
acompanhamento e memória.
A teoria de sistemas ajuda a ligar
reunião a processos; Simon orienta informação e decisão; cultura e poder
mostram quem fala e quem é ouvido.
Atividade 15 — Estudo sobre
terceirização responsável
Crie ou analise decisão de
terceirizar serviço de limpeza, tecnologia, transporte ou atendimento. Compare
custos de transação, dependência de recursos, agência e perspectiva crítica.
O trabalho deve incluir custo total,
especificidade, continuidade, qualidade, capacidade de fiscalização, condições
de trabalho, proteção de dados, acessibilidade e impacto sobre conhecimento
interno. A conclusão pode recomendar contratação, internalização ou arranjo
híbrido, mas precisa justificar critérios.
Atividade 16 — Linha do tempo
comentada
Construa uma linha do tempo do
pós-guerra ao presente, relacionando acontecimentos econômicos, tecnológicos,
políticos e sociais às teorias administrativas. Inclua expansão de corporações,
computação, movimentos por direitos, crises, globalização, internet,
plataformas e emergência climática.
Cada marco deve ser acompanhado de breve
comentário que evite determinismo. A teoria não surge automaticamente de um
acontecimento; é produzida por pesquisadoras(es), instituições, debates e
interesses. A atividade ajuda a recolocar ideias em contexto.
Atividade 17 — Carta de
recomendação à direção
A partir de um caso, escreva uma nota
técnica de duas páginas para uma direção. O texto deve traduzir pelo menos três
teorias em linguagem clara, apresentar evidências, alternativas e recomendação.
A nota precisa distinguir fato,
inferência e proposta. Também deve informar riscos e como o resultado será
acompanhado. O exercício aproxima conhecimento acadêmico da comunicação
profissional.
Atividade 18 — Autoavaliação
conceitual
Ao concluir o estudo, classifique seu
domínio de cada corrente em quatro níveis: reconhecer, explicar, aplicar e
comparar. Para os temas em que ainda existe dificuldade, registre uma ação
concreta, como reler texto, elaborar mapa ou discutir caso.
A autoavaliação não substitui avaliação
externa. Ela desenvolve metacognição e ajuda a perceber que conhecer um nome é
diferente de utilizar um conceito com precisão.
Atividade 19 — Revisão de uma
política organizacional
Escolha uma política de trabalho
remoto, avaliação, atendimento, compras ou segurança. Identifique objetivo,
pessoas afetadas, mecanismos de controle, exceções e indicadores. Depois,
examine a política pelas lentes estruturalista, contingencial e crítica.
A revisão deve verificar se as regras
continuam relacionadas à finalidade, se o contexto mudou, se existem barreiras
desproporcionais e se o canal de recurso funciona. A proposta final precisa
indicar redação mais clara, responsabilidades, prazo de revisão e forma de
participação.
Atividade 20 — Ensaio sobre o
futuro da Administração
Escreva um ensaio relacionando duas
teorias históricas a um desafio contemporâneo, como inteligência artificial,
emergência climática, envelhecimento populacional ou trabalho em plataformas. O
texto deve demonstrar continuidades e diferenças.
Um ensaio sobre inteligência
artificial pode relacionar Taylor ao controle do trabalho, Simon à decisão
limitada, sociotécnica ao desenho conjunto e institucionalismo à adoção por
imitação. A conclusão deve evitar previsões deterministas e apresentar questões
de pesquisa.
10.16.1 Critérios
de avaliação das atividades complementares
As atividades
podem ser avaliadas por cinco critérios: precisão conceitual, relação com
evidências, coerência da análise, reconhecimento de limites e clareza. Quando
houver proposta, também devem ser considerados viabilidade, responsabilidade e
forma de acompanhamento.
O uso de exemplos
reais exige cuidado com exposição de pessoas e organizações. Situações
sensíveis podem ser anonimizadas ou transformadas em casos fictícios. A
qualidade acadêmica não depende de revelar informação confidencial.
10.16.2 Como
transformar o guia em rotina de estudo
A leitura de um
texto extenso precisa ser distribuída. Recomenda-se trabalhar um bloco por vez,
registrar conceitos com palavras próprias e revisar exemplos. Depois de cada
corrente, a pessoa estudante pode produzir uma página com definição, contexto,
contribuição, limite e aplicação.
A revisão
espaçada tende a ser mais útil do que releitura concentrada. Um ciclo simples
pode incluir leitura inicial, mapa após dois dias, resolução de caso após uma
semana e comparação ao final do módulo. Quando houver dúvida, voltar ao texto
original ajuda a distinguir interpretação de formulação da autora ou do autor.
Estudar em grupo
favorece confronto de perspectivas, desde que todas as pessoas tenham
oportunidade de participar. A divisão de capítulos deve ser seguida de síntese
coletiva; caso contrário, cada integrante conhece apenas uma parte.
Por fim, teoria
deve ser conectada à observação, mas experiências pessoais não bastam como
prova geral. Elas funcionam como ponto de partida para perguntas. A análise
acadêmica exige conceitos definidos, evidências e abertura para explicações
alternativas.
A construção de
um caderno de exemplos também fortalece a aprendizagem. Notícias, experiências
de estágio, serviços públicos e situações de consumo podem ser relacionados às
teorias, desde que a comparação seja justificada. Ao registrar o exemplo, é
útil indicar fatos conhecidos, inferências e informações ainda necessárias.
Essa distinção reduz conclusões precipitadas e aproxima o estudo da prática
profissional de diagnóstico.
10.16.3 Leituras
comparativas para consolidar a disciplina
Uma forma
produtiva de aprofundar História do Pensamento Administrativo II é organizar
leituras em pares. A comparação permite perceber que autoras(es) partem de
problemas, níveis de análise e pressupostos diferentes. Os pares abaixo não
representam oposição absoluta; funcionam como roteiro para destacar contrastes
e complementaridades.
Simon e Mintzberg: decisão e
coordenação
Simon ajuda a
compreender como decisões são construídas sob limites. Mintzberg mostra
mecanismos pelos quais o trabalho é coordenado. A leitura conjunta permite
perguntar como uma estrutura distribui premissas, informação e autoridade. Em
uma burocracia mecanizada, muitas decisões são programadas por procedimentos.
Em uma adhocracia, situações não programadas exigem ajuste mútuo e conhecimento
especializado.
A comparação
também revela que descentralização não elimina limites cognitivos. Ao
distribuir decisões, a organização aproxima conhecimento e ação, mas precisa
construir integração e critérios. Centralizar pode reduzir divergências
aparentes e, ao mesmo tempo, sobrecarregar a direção.
Merton e Argyris: conformidade e
aprendizagem
Merton analisa
como disciplina e apego às regras podem deslocar objetivos. Argyris examina
rotinas defensivas e dificuldade de questionar pressupostos. Em conjunto,
mostram por que organizações mantêm procedimentos conhecidos mesmo quando os
resultados são ruins.
Uma equipe pode
cumprir regra porque ela protege responsabilidade individual e evita conflito.
A mudança exige mais do que alterar o manual. É necessário criar segurança para
discutir falhas, revisar incentivos e permitir aprendizagem de ciclo duplo.
Selznick e Schein: identidade e
cultura
Selznick mostra que
organizações adquirem caráter, valores e compromissos. Schein detalha níveis da
cultura e processos de aprendizagem coletiva. A comparação ajuda a compreender
por que práticas incorporadas não mudam apenas por decisão formal.
Uma instituição que
valoriza autonomia profissional pode resistir a sistema altamente centralizado
porque a mudança ameaça sua identidade. O diagnóstico cultural deve reconhecer
elementos que precisam ser preservados e práticas que contradizem direitos ou
finalidade.
Katz e Kahn e Lawrence e Lorsch:
sistemas e contingência
Katz e Kahn
oferecem visão de sistema aberto, com entradas, saídas, feedback e
diferenciação. Lawrence e Lorsch investigam como unidades se diferenciam diante
de ambientes específicos e precisam de integração.
A leitura
conjunta transforma conceitos gerais em problema de desenho. Não basta afirmar
que departamentos são interdependentes. É necessário identificar diferenças de
horizonte, linguagem e tarefa e escolher mecanismos de integração compatíveis.
Woodward e Perrow: tecnologia e
estrutura
Woodward
relaciona tipos de produção a estruturas. Perrow analisa variabilidade e
analisabilidade das tarefas. Juntos, permitem compreender tecnologia como
características do trabalho e do conhecimento, não apenas máquinas.
Uma mesma
ferramenta digital pode apoiar tarefa rotineira ou trabalho não rotineiro. O
desenho deve considerar exceções, julgamento e interdependência. Automatizar o
que não é analisável pode ocultar incerteza em regras rígidas.
Meyer e Rowan e Pfeffer e
Salancik: legitimidade e dependência
A teoria
institucional mostra que organizações adotam estruturas para obter
legitimidade. Dependência de recursos destaca poder de atores que controlam
recursos críticos. As duas perspectivas explicam por que organizações respondem
ao ambiente, mas por mecanismos diferentes.
Uma empresa pode
publicar relatório porque a prática se tornou norma e porque investidores
condicionam recursos. A análise precisa separar pressão simbólica, obrigação e
dependência material. Estratégias de resposta podem incluir conformidade,
negociação, diversificação e transformação da prática.
Williamson e teoria crítica:
eficiência e consequências
Custos de
transação ajudam a comparar mercado, contrato e hierarquia. Perspectivas
críticas perguntam como cada arranjo distribui controle, risco e condições de
trabalho. A leitura conjunta evita decisões baseadas apenas em eficiência
econômica estreita.
Terceirizar pode
reduzir custo direto e aumentar precarização, dependência e perda de
conhecimento. Internalizar pode fortalecer capacidade e gerar rigidez. Uma
análise completa precisa considerar custo total, direitos, qualidade e
responsabilidade.
Nonaka e Argyris: criação e
revisão de conhecimento
Nonaka e Takeuchi
descrevem interação entre conhecimento tácito e explícito. Argyris e Schön
mostram que aprendizagem depende de questionar teorias em uso. Documentar
conhecimento não garante revisão das premissas que orientam sua utilização.
Uma organização
pode possuir manuais detalhados e repetir erros porque ninguém pode questionar
metas. Gestão do conhecimento precisa unir registro, interação, experimentação
e reflexão.
Acker e Mintzberg: estrutura e
desigualdade
Mintzberg
descreve configurações e mecanismos de coordenação. Acker demonstra que cargos
e hierarquias podem incorporar pressupostos de gênero. A comparação leva a
perguntar quem consegue ocupar a posição idealizada pelo desenho.
Uma estrutura
profissional pode valorizar credenciais, mas redes informais e expectativas de
disponibilidade podem excluir. O diagnóstico precisa examinar acessibilidade,
cuidado, critérios de promoção e distribuição de trabalho invisível.
Sistemas e perspectivas decoloniais
A abordagem sistêmica
amplia fronteiras, enquanto perspectivas decoloniais questionam quais
conhecimentos e territórios são considerados centrais. Juntas, ajudam a
identificar externalidades e hierarquias globais.
Uma cadeia pode
parecer eficiente porque transfere impactos ambientais e trabalho precário para
regiões distantes. Ampliar a fronteira do sistema permite reconhecer relações
históricas e responsabilidades.
Síntese da leitura comparativa
A comparação deve terminar
com uma matriz que indique convergências, divergências e condições de uso. O
objetivo não é escolher uma teoria vencedora. É desenvolver capacidade de
formular perguntas melhores. Quando duas perspectivas apontam problemas semelhantes
por caminhos diferentes, a confiança no diagnóstico pode aumentar. Quando
entram em conflito, a divergência revela pressupostos que precisam ser
discutidos.
10.16.4 Registro de progresso
Para acompanhar a aprendizagem, a
pessoa estudante pode manter uma tabela com data, tema, conceito compreendido,
exemplo utilizado e dúvida pendente. Ao final de cada módulo, deve revisar se
consegue explicar a teoria sem consultar o texto e aplicá-la a uma situação
diferente da apresentada no guia.
O registro também ajuda a perceber
confusões recorrentes, como tratar estrutura orgânica como ausência de regras,
considerar burocracia sempre negativa ou utilizar motivação para
responsabilizar indivíduos por condições inadequadas. Quando uma dúvida reaparece,
recomenda-se voltar à fonte e comparar definições.
A progressão esperada passa por
quatro movimentos: reconhecer o conceito, explicá-lo, aplicá-lo e compará-lo. A
última etapa é especialmente importante. Uma pessoa pode conhecer racionalidade
limitada e, ainda assim, não perceber como ela se relaciona a sistemas de
informação, poder e contingência. A comparação transforma conhecimento
fragmentado em repertório profissional.
10.17
Encerramento
História do Pensamento Administrativo II
mostra que administrar é interpretar contextos, coordenar diferenças e
responder por consequências. As teorias não oferecem certeza absoluta. Oferecem
linguagem, hipóteses e critérios.
A formação profissional torna-se mais sólida
quando a pessoa estudante conhece a origem das ferramentas, reconhece seus
limites e evita aplicar modelos automaticamente. Organizações são construídas
historicamente e podem ser transformadas. Essa transformação exige método,
participação, evidência e compromisso com resultados socialmente responsáveis.
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