quarta-feira, 3 de abril de 2024

Selo Carioca ESG Racial: equidade racial, sustentabilidade e governança nas organizações


Selo Carioca ESG Racial: equidade racial, sustentabilidade e governança nas organizações



Em abril de 2024, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou uma iniciativa que procurava aproximar três temas que precisam estar cada vez mais presentes na gestão das organizações:

sustentabilidade ambiental, governança e equidade racial.

O Selo Carioca ESG Racial foi apresentado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima — SMAC, em parceria com a Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial.

O lançamento ocorreu em 4 de abril de 2024, no Museu Histórico Nacional, no Centro do Rio de Janeiro, depois de a programação inicial ter sido adiada em razão da previsão de fortes chuvas na cidade. A atividade integrou a I Semana das Nações de Matriz Africana Luzia de Pinta.

A proposta chamava atenção por um motivo importante:

equidade racial passava a ser tratada também como uma questão de gestão organizacional.

Não apenas como declaração de valores.

Mas como algo que pode ser:

planejado, acompanhado, medido e incorporado à governança.

O que é o Selo Carioca ESG Racial?

Na apresentação realizada pela Prefeitura em 2024, o Selo Carioca ESG Racial foi concebido para reconhecer organizações comprometidas com o enfrentamento ao racismo e às desigualdades étnico-raciais.

A proposta original mencionava:

  • empresas privadas;

  • organizações da sociedade civil;

  • instituições públicas.

Foram previstas duas categorias de reconhecimento:

Compromisso

e

Responsabilidade.

O processo de desenvolvimento do selo foi estruturado em um ciclo de um ano.

Mais do que entregar uma certificação, a ideia era estimular as organizações a desenvolver e demonstrar práticas relacionadas à equidade racial.

O que significa ESG?

A sigla ESG vem das palavras em inglês:

Environmental — Ambiental

Social — Social

Governance — Governança

Ela passou a ser utilizada para analisar como organizações tratam aspectos que vão além dos resultados financeiros.

Na dimensão ambiental, podem aparecer questões como:

uso de recursos;

emissões;

resíduos;

mudanças climáticas;

preservação ambiental.

Na dimensão social:

relações de trabalho;

diversidade;

direitos humanos;

condições de trabalho;

relações com comunidades.

Na governança:

transparência;

integridade;

controles;

responsabilidades;

processos decisórios;

prestação de contas.

O Selo Carioca acrescentou ao debate uma ênfase específica na:

equidade racial.

Por que falar em ESG Racial?

A existência de uma política genérica de diversidade não significa necessariamente que uma organização esteja conseguindo enfrentar desigualdades raciais.

Para compreender o problema, é preciso observar resultados concretos.

Por exemplo:

Qual é a composição racial da força de trabalho?

Quem ocupa os cargos de liderança?

Existe diferença de remuneração?

Como funcionam os processos de recrutamento e promoção?

Existem mecanismos para prevenir e enfrentar discriminação racial?

Fornecedoras(es) e organizações parceiras também são avaliadas(os)?

Existem metas?

Os resultados são acompanhados?

É nesse ponto que a abordagem ESG Racial pode contribuir.

A questão deixa de ser apenas:

“a organização é favorável à diversidade?”

e passa a incluir:

“o que a organização efetivamente faz, como mede e quais resultados consegue demonstrar?”

Os três eixos do Selo

Na proposta divulgada pela Prefeitura, o Selo Carioca ESG Racial foi estruturado em três eixos:

E — Meio Ambiente

R — Equidade Racial

G — Governança

As variáveis desses eixos seriam organizadas principalmente em dois índices:

Índice ESG de Equidade Racial — IEER

e

Índice de Meio Ambiente e Governança — IEG.

Assim, a análise não ficaria limitada à existência de uma ação isolada.

A intenção era observar diferentes dimensões da atuação organizacional.

O Índice ESG de Equidade Racial

O IEER está relacionado ao Pacto de Promoção da Equidade Racial.

Na divulgação original do Selo, a adesão ao Protocolo ESG Racial da organização e a apresentação da certificação do Índice ESG de Equidade Racial — N1 apareciam como requisitos para candidatura ao reconhecimento.

A lógica de trabalhar com um índice é interessante para a Administração.

Aquilo que não é acompanhado tende a depender apenas de percepções.

Indicadores permitem observar:

situação atual;

metas;

evolução;

diferenças entre áreas;

resultados das ações realizadas.

Mas é importante lembrar:

o indicador não substitui a política.

Uma organização pode possuir excelentes números em determinado aspecto e ainda apresentar problemas que precisam ser enfrentados.

A função dos indicadores é ajudar a enxergar a realidade, não escondê-la.

Compromisso não é a mesma coisa que resultado

A existência das categorias Compromisso e Responsabilidade também permite uma reflexão interessante.

Uma organização pode estar começando sua jornada.

Pode ter:

um plano;

metas;

grupos de trabalho;

formações;

políticas internas.

Isso demonstra compromisso.

Mas, com o passar do tempo, é preciso observar:

o que mudou?

Por exemplo, depois de uma política afirmativa:

a participação de pessoas negras aumentou?

houve mudança na liderança?

as diferenças salariais diminuíram?

as denúncias passaram a receber tratamento adequado?

as pessoas permaneceram na organização?

As respostas ajudam a diferenciar:

intenção

de

resultado.

O Selo e a Administração

À primeira vista, uma iniciativa de equidade racial poderia parecer assunto restrito às áreas de responsabilidade social ou gestão de pessoas.

Não é.

Ela envolve diversas funções administrativas.

Planejamento

A organização precisa identificar problemas, definir objetivos e estabelecer metas.

Gestão de pessoas

Recrutamento, seleção, desenvolvimento, promoção, remuneração e permanência precisam ser observados.

Governança

É necessário definir responsabilidades:

quem acompanha?

quem decide?

quem recebe os dados?

quem responde pelos resultados?

Indicadores

As políticas precisam ser acompanhadas por informações que permitam avaliar sua execução.

Comunicação

As ações precisam ser conhecidas internamente e apresentadas com transparência.

Controle

É necessário verificar se aquilo que foi planejado realmente está acontecendo.

Portanto, equidade racial também é:

gestão.

Cuidado com o chamado diversity washing

Existe um risco quando diversidade começa a ser valorizada institucionalmente:

a organização pode descobrir que falar sobre diversidade é muito mais fácil do que modificar suas práticas.

Campanhas podem apresentar pessoas negras.

Redes sociais podem celebrar datas relacionadas à igualdade racial.

Documentos podem utilizar palavras como:

inclusão;

diversidade;

equidade.

Mas a pergunta administrativa continua sendo:

o que mudou dentro da organização?

Quando existe uma distância muito grande entre comunicação e prática, podemos encontrar fenômenos chamados de:

diversity washing

ou

social washing.

Ou seja, a organização utiliza determinada pauta para construir reputação sem produzir mudanças correspondentes em suas práticas.

Certificações e indicadores podem ajudar a reduzir esse problema quando exigem:

dados;

critérios;

evidências;

acompanhamento.

Equidade não significa tratar todo mundo exatamente da mesma maneira

Outro conceito importante é diferenciar:

igualdade

e

equidade.

A igualdade procura assegurar direitos e tratamento sem discriminação.

A equidade reconhece que diferentes grupos podem partir de situações historicamente muito distintas.

Imagine uma organização em que:

90% das posições de liderança sejam ocupadas por pessoas brancas.

Dizer:

“a partir de agora todas as pessoas concorrem da mesma forma”

pode impedir novas discriminações explícitas.

Mas talvez não seja suficiente para enfrentar as consequências de processos históricos que produziram aquela desigualdade.

Por isso, políticas de equidade podem envolver medidas destinadas a remover barreiras e ampliar oportunidades para grupos que enfrentam desigualdades persistentes.

A importância da governança

Um dos pontos mais interessantes do Selo é colocar:

equidade racial

junto de:

governança.

Uma política que depende exclusivamente da disposição de determinada liderança possui grande chance de desaparecer quando essa pessoa deixa a organização.

Para permanecer, ela precisa ser institucionalizada.

Isso pode envolver:

normas;

processos;

responsáveis;

indicadores;

orçamento;

capacitação;

mecanismos de denúncia;

monitoramento;

prestação de contas.

Quando isso acontece, a equidade racial deixa de depender apenas de:

“quem está no comando agora?”

e passa a fazer parte da maneira como a organização funciona.

E o que aconteceu depois do lançamento?

A iniciativa lançada em 2024 avançou para uma etapa normativa posterior.

Em 2025, publicações especializadas registraram a formalização do Selo Carioca ESG Racial pela Resolução “N” SMAC nº 22/2025, com regras para certificação e manutenção dos eixos relacionados a equidade racial, meio ambiente e governança.

Há uma diferença que merece atenção.

A divulgação inicial de 2024 apresentava como público potencial:

empresas privadas, organizações da sociedade civil e instituições públicas.

Já informações publicadas sobre a regulamentação de 2025 descrevem a certificação especificamente voltada a empresas privadas.

Por isso, organizações interessadas em participar atualmente devem consultar as regras vigentes da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima antes de iniciar qualquer processo de candidatura.

O que uma organização pode fazer mesmo sem buscar o Selo?

A existência de uma certificação pode estimular mudanças, mas nenhuma organização precisa esperar um selo para começar.

Algumas perguntas já ajudam a iniciar um diagnóstico:

Quem trabalha aqui?

Quem ocupa a liderança?

Existem diferenças de remuneração por raça?

Como são divulgadas as vagas?

Quem participa dos processos seletivos?

Quem é promovida(o)?

Quem deixa a organização?

Existem denúncias de racismo ou discriminação?

Como elas são tratadas?

As pessoas conhecem os canais de acolhimento e denúncia?

Existem metas e responsáveis?

Responder essas perguntas pode revelar problemas que permaneciam invisíveis.

Reconhecimento precisa estar acompanhado de transformação

Selos e certificações podem cumprir funções importantes.

Eles podem:

reconhecer boas práticas;

estimular organizações;

criar parâmetros;

dar visibilidade a experiências;

incentivar acompanhamento de resultados.

Mas um selo não deve ser visto como um ponto de chegada.

Equidade racial é um processo contínuo.

A composição de uma organização muda.

Lideranças mudam.

Políticas podem funcionar ou falhar.

Novas desigualdades podem aparecer.

Por isso, o reconhecimento só possui sentido quando está acompanhado de:

continuidade;

acompanhamento;

transparência;

capacidade de corrigir rumos.

Uma iniciativa relevante para quem estuda Administração

O Selo Carioca ESG Racial é também um bom estudo de caso para estudantes de Administração.

Ele reúne temas de:

Gestão de Pessoas

Planejamento

Governança

Indicadores

Responsabilidade Social

Gestão Ambiental

Diversidade e Inclusão

Políticas Públicas

Gestão Estratégica

Em outras palavras, mostra que questões sociais não estão separadas da Administração.

Toda organização escolhe:

quem contrata;

quem promove;

como distribui recursos;

quais indicadores acompanha;

quais comportamentos aceita;

quais problemas decide enfrentar.

Essas escolhas também produzem consequências sociais.

Para guardar

O Selo Carioca ESG Racial nasceu no Rio de Janeiro como uma proposta para aproximar:

meio ambiente;

equidade racial;

governança.

Seu lançamento em 2024 mostrou uma tentativa de transformar a promoção da equidade racial em algo que possa fazer parte dos mecanismos de planejamento, acompanhamento e reconhecimento das organizações.

Mais do que perguntar se uma organização declara apoio à diversidade, iniciativas como essa permitem formular uma pergunta mais exigente:

quais práticas, dados e resultados demonstram que a equidade racial realmente faz parte da gestão?

Essa é uma pergunta que não interessa apenas às organizações que desejam conquistar um selo.

Interessa a qualquer organização que pretenda compreender como suas decisões afetam as pessoas que trabalham nela e a sociedade da qual faz parte.


Matéria original

Prefeitura do Rio anuncia o inédito Selo Carioca ESG Racial

Publicada em 28 de março de 2024 pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

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